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Poemas de ...





Flávio Silver

Jaime-Jaime - 17Ago2018 12:19:49
Quem ainda se lembra do Jaime-Jaime, lembra-se dos campeonatos de boxe ganhos, dos troféus erguidos em frente às televisões, dos avisos sucessivos que ele fazia aos seus adversários ameaçando-lhes que lhes partia a cana do nariz. Quem se lembra disto, lembra-se também do quanto era importante ser amigo dele, ir a uma disco e ser ele quem estava à porta.
O Jaime-Jaime, uma verdadeira força da natureza, voz de trovão a fazer estremecer os corpos e recuar os inimigos. A sua cara cheia de golpes era o seu cartão-de-visita.
Olhá-lo de perto era já uma afronta. Mantinha respeito.

Quando entrava no café, sabia-se o significado do seu silêncio. Só dava pela certa. E o certo é que ninguém se opunha. O Jaime-Jaime era um tipo à moda antiga, falava tosco, carregava um nadinha nos erres, mas ai daquele que fizesse troça. Os seus músculos pareciam de cimento armado.
Apenas no amor é que a coisa não lhe corria por aí além, apesar de ter um coração mole para as raparigas. Os seus triunfos a este nível não lhe traziam grandes vantagens. Se com os homens era, repito, um autêntico feroz, com as mulheres, era um coninhas. Sim, elas metiam-lhe medo. Sempre que se aproximava de uma mulher, ainda que fosse para pedir lumes para um cigarro, envergonhava-se de tal forma que, para aumentar mais a esta sua pobreza, chegava até a libertar um xixi pelas perneiras abaixo. E lentamente foi tomado pelo desgosto por não haver uma, pelo menos uma que se pusesse debaixo dele sem ser por interesse, mas sim por amor.

Agora só entre nós, dizem os da aldeia que este medo que o Jaime-Jaime tem das mulheres e que o faz fugir tal como um coelho foge do caçador, é por ter o ?membro? pequeno. É verdade, sim senhor, quem diria que um todo musculado tivesse carne em falta lá pelo tomatal. Vai daí a sua vergonha. Depois, ó diacho, se isto vem a público, lá se vão os méritos do passado, e de feroz passa a ser conhecido pelo Pila-Curta, aquele que tem um lápis que só escreve a letras minúsculas.

Anos se passaram e o Jaime-Jaime lá conseguiu arranjar uma a seu jeito, segundo ele, a flor mais virgem das redondezas, trabalhadeira e daquelas que se deita cedo. Uma mocinha de passado negro, infeliz, que ao lembrar-se desse passado que já lá vai, começa a chorar. Que ninguém lho lembre. Do nada, dá-lhe uns calafrios e começa a chorar. Dizem que foi por ter provado da erva do diabo. Ou da carne, não se sabe. É uma incógnita o seu choro. Felizmente os dias são os melhores lava-roupas que há por aí.

Por outro lado, claro que o Jaime-Jaime sofria em segredo pelo tamanho pequeno do seu lápis que, de certo modo, não lhe dava possibilidades de escrever grande coisa. E havia noites que pedia ao santo milagreiro dos lápis para que, por obra e graça, lhe aumentasse o dito cujo.
Com milagre ou sem milagre, o Jaime-Jaime não desistiu, e foi de propósito ao estrangeiro resolver o assunto que tem, neste caso não tem, entre pernas.

Por sinal, há lá um médico especialista que faz uns excertos e implantes que são uma categoria. Durante uns meses por lá andou, no estrangeiro, entre consultas diárias, picadas no cu, tirar carne de um lado para pôr no outro, mais umas quantas recaídas, mais noites mal dormidas e por fim umas ligaduras em volta do novo membro descaradamente ampliado. O Zeca andava em pulgas para ver o resultado. No entanto, pelo tamanho do enchumaço, a coisa devia estar no ponto certo. Quando chegou o dia verdadeiro de todas as evidências, depois de desenroladas as ligaduras com cuidado analítico, eis o pirilau, um senhor pirilau, mas com uma contrapartida.
Era negro, negro escuro como a noite que o pariu!, gritou o Jaime-Jaime furioso e raivoso ao ver o resultado. Teve de se conter com o que tinha e voltar para casa experimentar novas escrituras. Era uma questão de adaptação.

A sua mulher estava avisada que uma surpresa se iria dar. Ao saber disto, despachou-se logo a perfumar-se, preparou uns licores afrodisíacos num copo só, e esperou deitada na cama, nua debaixo dos lençóis com uma ansiedade trepidante no coração. Apesar dos contras, o herói chegou triunfante, entrando no quarto como se entrasse num ringue. Era o Jaime-Jaime no seu melhor. Começaram com uns pequenos beijos, uns abanões de lado, até que chegou a altura de lhe atacar com a surpresa, o seu novíssimo exemplar XXL. A sua mulher, ao ver a ponta do lápis, primeiro emocionou-se, depois, de lápis da na mão, do nada, deu-lhe uns calafrios e começou a chorar?


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=193607

O mundo é pequeno - 17Ago2018 12:19:49
Podemos perceber muito de finanças, saber o que o Pitágoras sabia, ter aberto muitas empresas de sucesso, ser barra em cálculo mental, mas não há ninguém, ninguém deste mundo que negoceie o tempo ao ponto de o fazer parar.
O tempo: esse cabrão que não espera por ninguém. Podes estar apertadinho da bexiga e erguer mãozinhas a deus para não te derreteres ali, mas sabes bem que o tempo é some e segue. Entre o passado e o presente a velocidade é tanta que nem tempo temos para morrer. É pegar no morto, chorá-lo, enterra-lo, cobri-lo, e está feito. Depois, que venha outro para o lugar deste.

A vida é assim, quando pensamos que vamos para comer, somos comidos. Ou então, haver muito sexo para alegria. Enfim, o sexo é o bastante para não pensarmos que a morte nos acena do meio da rua. Só não vê quem não quer.
O Bino não vive de planos, muito menos dos inclinados. Basta-lhe ter amigos e algumas amigas. A crise faz de nós seres mais ágeis e criativos. Caminhamos muito com a esperança de chegar a algum lado. Mas quase sempre acabamos no bar do Villas a beber esperança líquida até clarificar as ideias.

E foi numa dessas ocasiões que o Bino, farto de aguçar ilusões, passou a dedicar-se aos jogos de mesa, nomeadamente o póquer, onde, uma vitória podia-lhe valer dez almoços e assim salvar uns dias da miséria estomacal. Só que em cada lugar da mesa todos andam ao mesmo: ganhar. Ali não há espaço para engraçadinhos.
Quem tentar um piscar de olhos, ou meter uma carta por debaixo da mesa, está fora e arrisca-se a um murro nos olhos.

A sobrevivência é assim: ou jogas limpo ou cais na merda. Não há duas nem três. Frita-se os miolos ao mínimo derrape. O Bino conhece as regras. É dotado de uma inteligência paranormal que não passa por assar bifes com o pensamento. Não. A queda natural do Bino é a adivinhação. Um dom inexplicável que não conta a ninguém e nem tampouco sabe de onde vem. Sabe apenas que quando se senta na mesa para jogar, o seu instinto é mais forte que um extintor. Raramente perde e, por raramente perder, vem a desconfiança e vai-se o pleonasmo.
Os parceiros da mesa interrogam-se. Ninguém deste mundo tem tanto palpite acertado. Até que num dia, após ter depenado tudo e todos com um full de ases, apertaram-lhe as goelas quase ao máximo. Por azar, um deles era o Caga-Pó, saiídinho da prisa há meio mês, olho de vidro, pulseirinha electrónica, cicatriz na face...

É nestas alturas que o tempo pára, ainda que se tente dar corda aos sapatos. O Bino tentou a fuga pelas traseiras mas o matulão pôs o corpo na frente, sorrindo com a sua falta de dois dentes. Por milagre apareceu um ex-polícia a salvar-lhe a pele e a tirá-lo dali para fora com um puxão de roupa. Foi uma sorte o Bino ter saído dali com saúde, quanto mais vivo.
O Caga-Pó bem que queria dar-lhe uma coça, mas conteve-se, sabia que o risco era alto e preferiu dirigir-lhe umas ameaças para a próxima vez que o encontrasse. Já o Bino, agora de costas forradas, exibia uma ironia desastrosa, só para o deixar em águas. E foi-se embora dali, acompanhado por aquele que, dia após dia, se tornou amigo diário, o ex-polícia.

Claro que o dinheiro dá asas e, se a gente não tem um pouco de cautela, voa mesmo, sem nunca mais aterrar. O ex-polícia - que gostava de umas coisas esquisitas - um dia teve a belíssima ideia em levar o Bino para um bacanal, que aceitou, inclusive saboreou a palavra bacanal durante um certo tempo até lhe fazer água na boca. O ex-polícia tratou de ligar a um amigo que tinha uns amigos mais umas amigas de umas amigas, e a coisa ficou tratada para o fim-de-semana próximo, sendo a discrição a única exigência, uma vez que envolve gente da alta.

O Bino ficou em pulgas.
Logo ele, que tanto intuía, nunca na vida chegou a intuir uma coisa dessas, a não ser em sonhos. No dia da festa, aperaltou-se todo, passou a semana toda a fazer abdominais e a comer saladas e frutas para aumentar o seu endurance.
A horinhas partiram, pois sabem que nestas coisas do sexo, se nos atrasamos, outros passam a frente. É a chamada lei da vantagem. Portanto foram, desportivamente falando, a darem palha aos pensamentos e a suporem se no bacanal haveria mais loiras ou morenas. Quando chegaram à casa do Ramiro, a cena estava montada, o quarto semi escuro e, dentro dele, uma enorme cama redonda. Quando os dois amigos entraram, já os casais faziam trocas e baldrocas. Uma salada russa de amor, onde, neste caso, comer em excesso não faz mal à barriga.

O Bino, antes de começar as suas manobras, sentiu uma mãozinha ao de leve nas cascas. Olhou para ver quem era, via-se mal, mas via-se que sorria. Então aproximou mais os olhos, mais ainda, até ver nitidamente o que nunca foi capaz de adivinhar: um olho de vidro, pulseirinha electrónica, cicatriz na face? Nisto, a porta fechou-se!


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=183744

Política 7 - 17Ago2018 12:19:49

Anuncio aos meus dois ou três leitores, ainda cientes da cabeça, que, a partir deste exacto, preciso e microscópico mo(nu)mento, deixarei de falar de política, aqui e em qualquer lugar deste mundo e do outro. Com isto, pretendo reaver a minha honestidade e os meus valores, se é que alguma vez os tive. Primeiro, porque a política não nos leva a nada, segundo porque a política não nos leva a nada, e terceiro, porque é bom ter alternativas. Discutir política é o mesmo que discutir política. Os iluminados estão todos pregados ao tecto a alumiar salas de estar. Ouça lá, acha mesmo que eu, conhecedor de todas as fórmulas sobre a estupidez, lá ia perder o meu tempinho a escrever sobre política. Só se estivesse interessado em ofender o meu cerebrozinho, que tanto me custou a educá-lo. Os políticos são como os maricas, ainda que, sabendo eles que são mal falados, são sempre uns bem-dispostos, uns curtidos.

Portanto, por isto, por isso, por aquilo, daqui destes dedos que vos escrevem, desta boca com queda para a asneira, jamais ouvirão falar de política. Porque política é uma mulher que anda de boca em boca, logo, deduzo que seja uma das que se vende na beira da estrada por vinte e cinco euros. (Isto, segundo a nova tabela de preços de 2011. Ouvir falar).

Falar de política é simples, basta mastigar dez bolachas Maria, todas ao mesmo tempo. Fazer política é tão útil quanto puxar o autoclismo. Aprender política é como ter aulas de educação sexual, assiste-se mas não se dá assistência.

Sinceramente, já me irrita ouvir falar de política, dramaturgos a fazerem previsões futuras sobre taxas e juros. Prefiro dez mil vezes falar de gajas ou de manequins de saiinha por aqui em montras de pronto a vestir. Um dia apareceu-me um político à paisana na sopa e, antes que uma daquelas disenterias me fizesse apertar as nalgas, não o comi, deixei-o estar, só pelo prazer de o ver a afogar-se.
Política é conversa de macho que não cobre fêmea, só serve para limpar a dentadura, ranho seco no nariz. Portanto, meus ainda leitores, não vou sujar os meus dentífricos para quá quá quá sobre política e suas amantes politiquices. Não vou gastar megabytes de memória só para obesidar argumentos. Embora saiba que, quem fala de política, sabe bem o quanto vale ter um belo filho da punha ou fonha-se na língua.

Político não pensa, pensa que. Político não faz sexo, nem levanta o orçamento. Político não vai à bola, vai à borla. Político é animal sem dentes, para não deixar marcas no pescoço. Político é religioso, tendo como bíblia o manual de instruções do Ikea, para aprender como há-de apertar a rosca. É negociante, vende tangas. Para se fazer política, basta um estar bêbado e outro lúcido. Um amigo meu, disse-me há dias que se ia meter na política. E eu, como bom conselheiro e amante das coisas boas, aconselhei-o antes a meter-se na droga. Assim, que meta o nariz lá na farinha Maizena, em vez de andar a cheirar as nossas vidas.

Já gostei de política, mas enjoei, e à custa disso, apanhei as hemorróidas e uma entorse nas mandíbulas. Na minha opinião, político para ser político havia primeiro de passar por um teste de resistência. Assim de repente só tenho esta ideia: que tal um banho turco com trinta comediantes Senegalenses. Pense nisso.

Começo a criar a ideia que político é omnipresente, pois está em todas, até nos cofres-fortes do banco, ora vejam lá. Político é amante da pesca porque sempre ouviu dizer que mais vale um peixe na mão do que dois a voar.
Político só vai à escola quando é para levantar o pano da placa comemorativa, e sorrir como a sua mãe lhe ensinou. Lá isso não nego, e não me travo a soltar elogio, político é um bom filho da mãe. Também sou de acordo que, se político estivesse em via de extinção, acharia por bem, em prol da humanidade, pegar numa motosserra e cortá-los a meio, para de um fazer dois. Político é sério, mas apenas quando está com prisão de ventre. Também toda a gente sabe que a liberdade de ventre é o que é.

Outro amigo disse-me há dias: o meu filho virou costas à política. E eu, como bom espectador e rei da primavera, aconselhei-o, politicamente falando: já que ele virou, então que forre bem as calças, senão?habilita-se!

Tenho uma dúvida: política é um mal necessário, ou um bem desnecessário? Se souber responder, não responda, fique calado, já disse, fique calado, eu não disse que não quero mais escutar política? Não estou para amar a futilidade, para isso basta-me dois minutos de talk-show no Canal Parlamento. Os políticos são os maiores e conceituados travestis do mundo. Excepto numa condição: mudam de cara mas não mudam de roupa. Eu nunca falei mal de políticos nem de politicuzinhos, porque, falar mal, é só para letrados, e de letrados, gente doida e petulante, estou por aqui.

No fundo, há que ter pena desses tipos que só falam, inflacionam tudo que dizem, porque todo o mundo sabe que política é como a marijuana: ?provoca esquecimento, e outras coisas que agora não me lembro?.

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=170041

poema e... - 17Ago2018 12:19:49
Escuta o barco que vai na estrada. olha como brilha o redondo cio da lua. demora em mim como um ser quieto.
escreve como quem fode a dor.
escreve a hora que é hora de sonhar.
fala com formas.
Se te olho como um número inalcançável ou
sonda que abala a terra,
é porque existe um verbo que por nenhuma boca passou.
sonho-te como um acreditado em OVNIS.
como um inocente que se oferece para ser condenado.
e vejo-te no princípio agora e sempre, amém. Tocas em mim feito nó cego.
algo inseparável.
dois filhos unidos pela cabeça. duas rotas encontradas na curva do joelho.
dois sóis feitos com a melhor fazenda do universo.
amor, por que me tocas com incendiária melodia. água benta a ressuscitar o meu nome,
e me desejas como um fruto que a terra ainda não deu?

fala-me do berço de todas as lembranças.
do embalo suave da manhã, da casca
da noz que nos transporta para lá do que é imortal.

vejo-te, e que isso nunca me cegue.
escuto-te. e que isso nunca me faça perder-te de vista.
És a minha visita logo pela manhã. o santuário onde só eu posso entrar. a luz febril na minha carne.

toco-te em animal(sidão). em flocos de sangue a trespassar as suas margens.
depois com os intestinos, com o coração a
pedir mais e mais.
a minha raça aumenta. o meu destino torna-se em bagaço mudo. e expludo em selvática melancolia a desejar-te na oblíqua dor.
no vertical amor de vencer todos os tornados, e rompo o teu corpo com um disparo de neve. e torno-me ateu só de olhar a
tua nudez

amor, conta-me as estradas,
manda o silêncio para a noite que o pariu, enterra o ciúme na terra e a terra no ciúme.
diz-lhes que estás a matar e a ser morta.
se tapo todos os silêncios do teu corpo,
é porque o meu clarão é uma música que invade, é algo que o Guinesse Book não registou
nem nunca ouviu falar. porque o meu
tesão tem algo de construtivismo.

e assim, amor, sei que vês estrelas polares no céu da minha boca. e sei que sou um filho da puta que te ama mais do que qualquer outro filho da puta




Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=169434

como se faz um país? - 17Ago2018 12:19:49
Hoje acordei com a sensação de sábio. Desculpe este egocentrismo mais dilatado que o meu próprio umbigo. Isto de pensar sem equacionar os prós tem os seus quês, que, por vezes, accionar a alavanca do pensamento, tem as suas inglórias, logo: ?é mais um tijolo contra a parede?.
Hoje foi assim: acordei com a pergunta no céu-da-boca: como se faz um país? Uma questão tão simples mas que me estragou logo o pequeno-almoço na pastelaria ao pé da Guarda Republicana. O meu bolinho de arroz matinal desta vez soube-me a restos de implantes mamários.
Andei meio coxo devido à responsabilidade do ter que responder a esta pergunta, que se desarrolhou de um sonho meio sonâmbulesco.

Certo ou errado é que, ao passar por um edifício em construção tive um clique! Pois bem, areia e cimento será sempre necessário para começar qualquer coisa, até mesmo o amor, já que, amar ao relento, não traz benefícios fiscais. Ou seja, um país faz-se do mesmo modo que se ergue uma casa: com muita areia e cimento!
Mas esta pequena ideia não bastava para concluir o meu país. Reparei então num cego que pedia. Intuí: eh pá, um país precisa sim é de ceguetas a estender a mão para que outros se possam governar. Exactamente, sem tirar nem pôr. Lé com cré. Criar uma consessão de pedintes e sub-pedintes para um bolso só. Mais adiante reparei numa rua que, por ser esburacadamente bela, dá muito serviço ao agente próximo da funerária. Fantástico!
Depois, sem querer, descobri homens e mulheres rapando os contentores, dilatados nos estômagos pela fé e pelo feijão que o supermercado não vendeu e deitou fora. Mas estava limpinho!

Aqui, neste pim pam pum, fiquei de sensação cheia de que o meu país começava a ganhar contornos. Muita fome, miséria a posar para a fotografia, prostitutas, proxenetas, crocodilos, simpatizantes, Barbies na banheira, hipocrisias, lá diz o João, lá diz o José, também fazem falta para compor uma nação. Ao passar perto do tribunal, calhei de ouvir um magistrado dizer a um vagabundo: agora vê lá se te portas como deve ser, meu rapaz! O vagundo, assim que pôs um pé fora do tribunal, socou dois polícias, apertou o nariz à senhora do balcão, urinou contra o edifício público, mandou sete balas para o céu e dois por debaixo das pernas arcadas, numa imitação perfeita do John Wayne, que até o magistrado comentou com um colega da magistratura: - Como eu adoro este rapaz. As coisas que ele sabe fazer!

Entre tábuas e arvoredos vi e ouvi um senhor de Lamborghini a dizer a um puto: queres andar a 200 kmhora, meu menino? O puto maravilhou-se, entrou no carro, e nunca mais se ouviu falar nem de um nem de outro, a não ser por fotografias. (O do Lamborghini era o que estava a sorrir)

Um país faz-se ao contrário do amor, sem escolher o melhor chão, faz-se em segredo como os amantes, com assinaturas falsificadas, muito enredo, com muita bosta, corrupção, anestesia para os neurónios, matança em câmara lenta, com muito filho da puta a vir à televisão dizer está tudo bem, está tudo bem, olhem só p?ra mim! Um país faz-se com mais ignorância do que sabedoria, se for à sombra da bananeira é que é bom, enquanto se olha a senhora Crise a depilar-se toda para depois encornar milhões de gente.

Faz-se com porrada em cima do lombo daqueles que tentam dizer um ai da boca para fora, faz-se no escuro, a apalpar o rabo uns aos outros enquanto se discute matéria de Estado e em que bolso se há-de meter a mão. Um país faz-se entre as três e as cinco da tarde, que é quando dá mais vontade de fazer necessidades fisiológicas. Mijar, para ser mais preciso. Faz-se num campo de batatas, como quem as semeia, mas se te abaixas mais um pouco?

E assim, meus amigos de várias idades, a maqueta ia-se fazendo, evoluindo, dentro da minha cabeça como um peixe a crescer, quando, ao comparar as semelhanças com este nosso querido país, pensei: eh pá, se já tenho este, para quê querer outro igual? Então comecei a correr, a correr muito, feliz, muito feliz, por saber que moro num país paisagístico que não cobra por chorar, que tem o fado e a saudade que se amam mas que não fornicam, e tem poetas e críticos como eu para converter lágrimas numa bebedeira azul, e tem a morte a vida no mesmo envelope aqui na caixa do correio, e tem a noite e o dia com cara de pau, e tem o amor e o ódio a costurar sonhos com fios de lágrimas, e tem o certo e o errado a rapar o prato, e tem acima de tudo, abaixo de nada, para quem pode, para quem phode, o domingo para descansar!


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=167988

vou fazer muitos poemas - 17Ago2018 12:19:49
vou fazer muitos poemas e engatar muitas raparigas. e fazê-las
pensar que sou daqueles que passo horas em frente ao mar, a estudar
o voo ascendente dos peixes, a deitar gotas de
cio nas palavras para
que se sintam desejadas. vou fazer muitos poemas de amor, tantos quantos possíveis para engravidar todas as raparigas solteiras do
mundo que me queiram ler. e ter filhos
que mais tarde vêm ter à minha porta e ver que eles são aquilo que inventei para serem. ter nos versos um certo desgosto para que tenham pena e me atirem beijos do mar em que estão. quando me sentar para escrever quero ser homem aos poucos, ter a felicidade de uma rameira ao finalmente chegar a casa, pôr o fogão no mínimo,
abeirar-se da cama e sonhar com o milagre das coisas boas. vou fazer muitos poemas, tantos que a minha mãe me dirá para parar se não quiser enlouquecer. mas eu digo-lhe, que assim seja, que me afunde contra as palavras e o mundo seja apenas um verso
em que arrisco a vida.
as raparigas solteiras vão ficar palermas ao ler os meus poemas que falam e soletram
aquilo que elas escondem debaixo das suas saias. vão querer tatuar frases minhas no fundo das costas para que junto delas reclame direitos de autor. e vou rimar fogo e água no mesmo coração,
e vou tirar as botas às letras maiúsculas, depois abrir a torneira aos dias claros e existir longamente.

as raparigas solteiras não vão querer ficar menstruadas no dia em que fizer poemas, e o meu pai bater-me-á se cometer uma qualquer discordância ortográfica, e nem me deixará mudar de linha enquanto a noite tiver escárnio na língua. as casadas que me perdoem mas vou fazer muitos poemas para as raparigas solteiras, tirar-lhes as medidas letra a letra e acabar nos seios delas com uma menção honrosa. quando escrever quero mijar no tempo para não perder demora, fazer de conta que a vida me fascina
e ser a terra onde o cão esconde o osso.
inventarei um morto
e roubarei ao Herberto Hélder sangue e luz dos seus livros para assim cantar como canta o fogo

Vou fazer muitos poemas, tantos que a caneta ejaculará a sua tinta azul fluorescente por toda a página e as raparigas
solteiras pensarão que a proeza foi toda minha, e
perguntarão à minha mãe onde vou morrer esta noite, onde guardo o nome dos remédios valiosos
vou escrever nos bilhetes de comboio,
nos manuais de instruções,
nos peitos das aves,
nos sinais de trânsito,
no coração da luz,
no cu do judas,
no céu do meu quarto,
vou ter grandes erecções
só de pensar que nenhum crítico me vai ler, que nas estantes bibliotecárias só os poetas loucos me dirão, podes vir.
ah, vou fazer tantos poemas que os animais vão querer provar desse pasto,
a lua vai-se algemar e a solidão vai fugir com um italiano.
vou dar cabo das religiões,
entrar no fogo da simbologia,
abrir o túmulo do Fernando Pessoa e sacar-lhe inéditos. e as raparigas
solteiras vão-me admirar toda a eternidade, vão querer casar com todos os meus eus, os meus mins que andam de cá para lá algures entre o crânio e os carpos. e eu, assombrado como um deus a aprender o instinto, a ter amor em cada palavra
e matar
a anterior.
E as raparigas solteiras que não sabiam que matar
era morrer, choram, ao perceberem que o poema afinal, acaba mal

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=163899

Não há memória de alguém assim. Homem com duas cabeças que nasceu lá na aldeia faz cinquenta e tantos anos. Dois velhos no mesmo corpo. Dois pescoços erguidos sobre um largo ombro. Duas vozes a responder diferente à mesma pergunta. A bem dizer, dois casmurros sem remédio que, se não fosse o pároco da freguesia a botar-lhes a mão não sei o que seria da vida deles.

Por serem assim, julgam as pessoas que eles já nasceram velhos, com as ideias meias enferrujadas, com talento para andarem à cabeçada um com o outro. Pois, senão esta, a melhor maneira de um mostrar a razão ao outro. Lá na aldeia todos conhecem o Micas e o Zicas. Um sortudo e um azarista. Um paciente o outro nem por isso.
O Micas desfaz a barba, o Zicas já não. O Micas espera arranjar namorada, já o Zicas quer é conhaques e utilizar a mão esquerda para escrever poemas e mais sei lá o quê. Se um diz preto o outro diz branco, se um quer ir a Coimbra o outro quer ir a Viseu. Já se está a ver a grande barracada que para ali existe naquele corpo. Duas pessoas a decidirem o que hão-de comer é complicado, complicadíssimo, sobretudo quando partilham o mesmo estômago, o mesmo fígado, o mesmo coração. O Zicas come de tudo e mais o que vier à boca, lambuza-se com pastéis de nata e toucinhos de porco, o Micas é o contrário, evita fritos, gorduras, e passa-lhe um raspanete, até porque, o que cada um come sai pelo mesmo escape e quando sai grosso, o aperto é dos dois.

Por isso é que por vezes se zangam, os cigarros que o Zicas fuma, fazem padecer o Micas, e a tosse é de ambos.
O Micas acorda cedo e quer-se pôr a mexer da cama, o Zicas é um tormento para se despregar da cama. Se houvesse uma motosserra que os separasse bem divididos, sem que haja coisa de maior, com certeza que o Micas, o comportadinho, seria o primeiro a dizer que sim.
Ter que conviver com uma cabeça que pensa exactamente o contrário de si, é obra. Mas, direitos ou tortos, lá vão andando pelos dias. Tantos que para se saberem terei de multiplicar os dias pelos anos que eles têm. O problema maior é quando a um vem um desejo daqueles de ir às raparigas. Está-se mesmo a ver o sacrifício, pois, dada a anormal a aparência, fica difícil arranjar uma mulher disposta a alinhar com os dois.

E foi precisamente a falta de uma namoradinha que começou a causar neles um tristemente amargurado sem fundo, sem literatura para a descrever. As duas cabeças aparentavam ares de terminal. Ainda virgens, sem nunca terem espetado o garfo, desconsoladíssimos da vida, quem é que aguentaria.

Mas um dia, um bendito dia, o próprio pároco, humanista como tudo, ao saber desta desgraça, encarregou-se ele próprio de fazer boas bondades ao Micas e ao Zicas onde, volta e meia, lá com as suas misericórdias, conseguiu arranjar uma moça que de vez em quando passeava lá pelos quintais.

Ela primeiro hesitou, mas depois achou a ideia brilhante. No fundo encarou como uma experiência, uma espécie de ménage a trois ou um 2 em 1, como lhe queiramos chamar. E foi no segredo dos deuses que o pároco, pelo denso da noite, meteu a mulher em casa deles. Apesar de serem duas bocas, quatro-olhos, quatro orelhas, dois pescoços, só havia um corpo dos ombros para baixo, logo, é fácil entender que só havia uma linha para enfiar na agulha. Fosse como fosse, eles lá se entenderam e a noite durou mais que o dia, dentro do quartinho onde o escurinho era tão bom, era tão bom. Aliás, única exigência da mulher para não levar tamanho susto ou arrepio.

Resultado: a coisa rolou dentro do que se pretendia: oferecer uma noite de sexo e prazer ao homem de duas cabeças.
Só que, ou por uma falha de cálculos ou por excesso de energia daquela, nove meses depois apareceu o imprevisto: a mulher deu à luz um rapaz, um fedelho bem feitinho. O problema estava agora em atribuir a paternidade.
Afinal, quem era o pai da criança, o Micas ou o Zicas? Quem é que tirou mais proveito? Certo é que o puto foi crescendo dentro desse ambiente, sem saber a quem chamar pai.
Os tribunais não sabiam como decidir a coisa. Adiamentos em cima de adiamentos.
Alguém tinha de dar colo ao puto e desembuchar o dinheiro para as fraldas.
O tempo foi passando e o processo arquivado. O homem de duas cabeças continuou a sua rotina dando ao badalo no sino da igreja e, quando o puto, já grande, de ranho no nariz, vinha a mando da mãe pedir algum para o sustento, tanto o Micas como o Zicas, que até ali discordavam e discordavam e discordavam, diziam bem alto a uma só voz: vai chamar pai a outro, pá!

?

nota desinteressante: como o puto era um irrequieto do caraças e com queda para carapau de corrida, facilmente se deduziu que era filho do Zicas, o atravessado, já que herdara um dom congénito. Não havia dúvida e assim foi. Mas, a dadas páginas da vida, o comportamento do puto mudou radicalmente. Tanto que mudou que acabou por entrar no seminário e em três tempos se fez padre. Enfim, suspeitas à parte, a hereditariedade já não é o que era dantes.

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=163346

o nós - 17Ago2018 12:19:49
não questiones a sintaxe
olha-te para lá do verbo
sê-te livre como um livro a galgar caminhos
como as águas rebentadas de uma gravidez

não queiras ser suporte de uma lâmpada
nem a luz redonda que fica no chão do teatro
escreve o nós como se o nós
fosse a a vida diante do espelho
ou como aquele profeta que foi à morte e voltou
apenas com o pretexto de repetir a cena

caminha para o poema
pelo centro da dor das palavras
agita-as numa vontade de mar
até veres no fundo da música
os pássaros brancos


***


Vejo que nunca te disse como escuto música e, fico assim, a pensar nessa forma de caminhar, quando não me vês, de poder tocar-te sem que me sintas e, por vezes a escrever-te longas cartas em mar alto. Este quadro preso por trás de ti, sensibiliza o arrepio de saber o sabor-a-ti nos teus instantes de lembranças, tão objetivos a escorrer pelos traços negros e finos. Ouve-me com teu corpo? Ouve-se a música. Pinto os meus quadros quando escrevo-te inteira na palavra intocada sem restringir tudo o que não se esquece, como aqueles pássaros de água na qual pintaste com dedos, contornando as asas como quem depositas segredos. É assim que crio os alicerces, pelas páginas que me dedicas. Nada como amanhecer em chuva e, perceber que no pensamento arrisca distraidamente o que não cabe nas entrelinhas; o casulo onde me recrias.




Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=162157

As três irmãzinhas - 17Ago2018 12:19:49
Andou no seminário e graças a Deus que deixou o curso a meio, caso contrário, hoje estaria vendendo missas ao preço da monarquia.

Deixou porque se apaixonou pela Lolita, a mais nova de três irmãs, uma comunista de primeira e que passava tardes inteiras a pintar panfletos insultuosos contra o regime.
O Bilinho adorava esse seu lado de querer partir tudo, de num grito estourar os miolos a meia dúzia de novos riquenhos que exibiam os seus Bentleys em plena avenida.

Depois à noite, na cama dos dois, era outra a conversa, de leoa acesa e feroz e compulsiva e imaginativa passava a gatinha obediente e meiga e etecétera e tal. E foi por assim dizer que deixou a sua vocação de lado. Trocou a batina por uns jeans esfarrapados, as leituras sagradas pelo Marx. O celibato foi-se.

Mudou de rezas mas não acertou no totoloto. Sim, nem tudo são favas contadas.
A Lolita tinha uns ataques a meio da noite, sonhava com revoluções e com assaltos ao arranha-céus, e esperneava como uma louca em estado avançado.
Depois acalmava e exigia que fizessem amor sem lógica nem devoção até caírem para o lado, de exaustos. No dia seguinte ficava branca de lembranças e, vendo-se nua, perguntava-lhe em estereofonia arrepiante, o que é que ele lhe tinha feito. O esquecimento dela fazia o Bilinho sentir-se um aproveitador. Mais ou menos isto. Não sabe. O que sabe é que tudo estava encaminhado no sentido de se enlaçarem matrimonialmente quando, um dia, um outro dia, conheceu a irmã dela, a do meio, uma piolha linda como o sol do meio-dia, também ela acabadinha de sair da puberdade, fresca como uma tangera, pescoço alto onde nenhum dente foi lá morder ou tirar medida.

Seu nome é Melissa, mais conhecida por Mel. Até nisso o nome cabia-lhe que nem uma luva, pois de mel era todo seu corpo na sua colmeia. Quando a viu, de cabelos ao vento, saia curta a mostrar que o que é bom é para se ver, em cima de uns tacões altos, ó ó, a sua honestidade foi-se, como quem diz, passou a desejá-la lá no seu íntimo, como um fruto proibido. Ainda por cima, deu-lhe bola, sorrindo para ele com os seus dentes alinhados, ao contrário dos seus.

Houve ali qualquer coisa que não sabe se foi Cúpido ou não. Fosse quem fosse, lançou sobre eles as melhores intenções.
E como de intenções anda o mundo cheio, passaram aos factos e actos.
Era sim uma musa com todos os predicados que o punha sujeito ao verbo enlouquecer.

O problema é que em tudo na vida existe um senão. Neste caso um senão maldito que até há vergonha em contar. Mas pronto aqui vai. É que a Mel, apesar de poderosa na sua beleza, tinha um quê: largava-se muito. Não sei se estão a entender.
Ó pá, dava umas farpas valentes que o até ouvido do Bilinho dava rodopios e que inclusive durante dias passou a usar algodão nas orelhas. Aquilo parecia castanhas a estourar no forno!

Ainda por cima era sempre no momento em que. Sim, a Melissa peidava-se! Isso desconcentrava-o bué, e caía do ponto alto do entusiasmo tal como um fruto cai na terra. Não sabia como acontecia, mas que acontecia, acontecia. A sua vontade era de pôr-lhe uma rolha, mas, em vez disso, foi confessar-se à mais velha das irmãs, contar-lhe os seus azares quando, na primeira troca de olhos, logo viu que era tanto ou mais pecadora do que ele, daquelas que é só alçar a perna.

A Becas, uma maria-papoila de traços morenos, sobrancelhas milimetricamente desenhadas, lábios enchidos a silicone, nariz mudado, adepta do botox, extensões no cabelo, tatuada no fundo das costas. Só em mamas é que sai ao pai.
Enfim, uma beleza artificial mas que na realidade dava vontade de explorar a fundo, tipo um mineiro de corpos. A Becas, em cada vinte minutos falava dezanove. Gostava muito de conversar e saber coisas.

A verdade é uma, entre eles silêncio não havia, nem quando uniam joelhos. A quarentona era um autêntico papagaio mal amestrado. Só falava de beleza e de cosméticas e de melhoramentos faciais e de peles no pescoço e do raio que a parta! Becas, cala-te! Aquele zumbido a toda a hora deu cabo do seu non sense.

A esta altura, o Bilinho de religioso já não tinha nada. Era um talibã com vontade de a esganar. Cala-te Becas! E a Becas sempre a falar, a palrear. Resultado: deixou-a a falar sozinha. Acho que ela nem deu por nada, mas pronto. ~

Nos caminhos da sua solidão pensou: esta família está possuída! Então quis saber a raiz do mal, o gene da coisa. Foi à casa das três irmãzinhas falar com a mãe delas. Depois de entrar, eis que a viu: a dona Micas, sessenta anos às costas, cara honesta, um luto inimaginável, certamente repleta de teias de aranha lá na luz de Vénus. Ao saber das suas mágoas, a matriarca ofereceu-lhe o seu colo. O Bilinho aceitou isso como quem nos oferece um copo de vinho de bom grado, mas não foi por muito tempo, apenas o tempo de sentir um pau a crescer lá para os lados do traseiro-ganga e a verdadeira dona Micas entrar de rompante, quebrar a cena, e dizer: ó home, lá tás tu outra vez a brincar aos carnavais!


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=161010

Ferra aqui que eu deixo! - 17Ago2018 12:19:49
Na verdade hoje tenho pouco a dizer.
Estou a chegar do confesso e sinto-me leve.
Pelo menos poupei na consulta que tinha no psicólogo.
O padre tem a bendita paciência para escutar histórias macabras, coisas de puta madre, enfim, a minha vida de trás para a frente, tipo fita americana.
Tento manter este elo de ligação entre o chão e o céu, sabe-se lá o dia de amanhã e, entre o sim e o não, prefiro o talvez quem me ajude.

O padre já se habituou aos inúmeros pecados que, gentilmente, faço desenrolar tal como uma lista de compras. Peco aqui, peco acolá e depois, salda-se os pecados todos com umas ave-marias muito à minha maneira, ao meu estilo meio ?analfabruto?.

Se há pessoas que sabe que a Zélia anda a marchar comigo às sextas é o padre Sintra, está a par de tudo, até dos ataques que ela tem de ninfomaníaca quando ao telefone me diz: «ferra aqui que eu deixo».

Depois, dá-me lições de moral a troco de umas moedas na caixa de esmola.
É justo.
Cada pecado tem um preço e não vale a pena pedir rebaixa. A vida é assim, uma simbiose entre uma pedra e um pau.
E foi assim que começou o mundo, à pedrada e à paulada, não é verdade, caríssimos irmãos?
Na escola dão-nos rebuçados se portarmo-nos bem, em graúdos dizem que os rebuçados fazem mal aos dentes. Sinceramente, já não sei em que ponto hei-de ficar, se a chupar rebuçados ou dar a chupar.

Isto foi um aparte, aliás, são os apartes que enchem uma história, um namorico, um amor sério. As estrelas não me inspiram sequer uma canção, mas a Zélia sim, quando ela quer leva-me ao cume do cume, sem grande esforço de ancas, diga-se de passagem.

Tenho ido aos ninhos mas não tenho a sorte.
Da última vez, convidei o padre Sintra para que fossemos os dois dar uns tirinhos lá pela mata. Logo se fez disponível e fomos num sábado de manhã, ambos bem equipados. Dentro dos fatos parecíamos duas alfaces, de caçadeira aos ombros.

Os melros nesse dia pareciam estar de folga, pois nesse sábado, ó diacho, é que nem melros, nem perdizes, nem nada.
O céu estava vazio.
Pássaros, só um papagaio azul, que mal sabia se pertencia à terra ou ao céu. Apanhamo-lo junto ao ribeiro, estava a molhar o bico. Meti-o logo numa gaiola.

Ainda assim o dia foi proveitoso, deu para conversarmos bastante sobre o país, sobre as gentes da aldeia, sobre a Zélia?, as habilidades que ela tem?, enfim, conversas de homens, onde se falou de tudo menos de putas, como é óbvio, visto que, padre que é padre, tem sempre más lembranças.

Metemo-nos no jipe e deixou-me à porta de casa. Depois de um dia grande só queria era cama. Estava como um abade. Barriguinha cheia, alma serena, a Teresa Salgueiro, com aquela voz de bezerro à nascença, no aparelho a embalar-me. Para coisa ficar completa uma queca vinha mesmo a calhar. Não foi possível porque a solidão não baixa as calças a ninguém.
Passei a noite toda a sonhar com pássaros.
Na minha mente, pássaros.
No meu corpo, pássaros.
Era pássaros aqui, pássaros acolá.
Houve uma altura que disse bem alto, porra para tanto pássaro e nenhuma gaiola!

Amanheci com uma vontade esotérica de desabafar lágrimas secas com alguém do sexo oposto.
A Zélia deixou de dar notícias, o que achei estranho, pois já passaram três sextas-feiras e não deu sinal nenhum.

Antes que entrasse por vias de depressão, peguei na bicicleta e fui à casa da Zélia o mais rápido que pude. Bati à porta as tais cinco vezes seguidinhas e ninguém respondeu.
Sei que Zélia tem um feitio filho da polícia mas não é pessoa de desaparecer assim do nada. Dei duas voltas à casa e tudo na mesma: a casa sem sinal de vida.

Pelo caminho alguém disse tê-la visto na igreja, que já nem parece a mesma, convertida na fé e nos braços do Senhor. E de facto sim, mal olhei a cara da Zélia, nem parecia a mesma, olhos vidrados nos santos, de joelhos no chão, a rezar com a devoção de um povo inteiro.
Aproximei-me. Nisto, o padre Sintra tocou-me e, num bafo de voz, disse-me:

- Deixa-a estar, Bilinho. Está no silêncio da sua oração a trilhar os seus caminhos. Ela sentiu o chamamento?

Pensei, quem diria. Mas não deixei trespassar o pensamento, guardei-o naquela gaveta da memória onde eu e a Zélia, juntos, fizemos boas transpirações.

Ao regressar lembrei-me em passar rente ao muro da casa do padre e pegar numas amoras que cresce para o lado de fora. Ouvi uns barulhos, uma voz a chamar. Resolvi subir o muro e pus-me à coca.
Era o papagaio. Quem o viu e quem o vê. Estava gordinho o filho da mãe.
O papagaio dizia umas coisas que eu queria entender.
Então, subi ainda mais o muro, mas com cautela, pois sobre ele tem duas fileiras de arame farpado.
No ponto alto do muro, escorreguei para o lado de dentro, bati de cu no chão e fiquei num oito. O papagaio bateu asas, como que aplaudindo, o sacana, fazendo troça de mim, ao mesmo tempo que dizia naquela voz telecomandada:

- Ferra aqui que eu deixo! Ferra aqui que eu deixo!

O padre apercebeu-se e falou:
- Quem vem lá?

Desta vez fiquei calado.






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