Flávio Silver

Mais próximo do céu -2ª crónica - flavio silver -

Os homens da cidade falam em silêncios como se a poesia fosse um bicho brutal.
dizem que as crianças choram quando a mãe se demora a vir do curral.

os homens da cidade não sabem que o vento nos olhos faz chorar, que Deus espreita pelos olhos de uma águia.
a montanha é terra dos homens antes de a ciência ter aprendido, antes da Eva oferecer sua virgindade ao profeta maior. os homens são mulheres quando falam de coisas tristes, afligem as crianças de berço.

sei uma história: havia um monte para lá desta montanha. um homem meteu-se ao caminho, carregado de livros. uns escritos, outros por escrever. cruzou-se com outro homem que também ia para lá. este, sem levar nada, disse:
- Assim tão carregado jamais lá chegarás!

após dias e dias, um deles acabou por chegar e, no regresso, cruzou-se com o outro que ainda a meio do caminho, e disse:
- Assim tão sem nada nas mãos, que darás a Deus em troca para te encher o corpo e a alma?
Foi então que o outro decidiu voltar para trás e começar tudo de novo.

---
www.pegadaebota.blogspot.com
escrevo quinzenalmente para este blog



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=48905

mais perto do céu - flavio silver -

Não existe noite neste lugar: que são músculos salientes da terra. por aqui passaram poetas e trovadores, cientistas e saltimbancos, na tentativa de tocarem no céu.

os pastores conhecem os trilhos, traçados pelos cascos dos animais. sabem que mais ali existe um rio pelo cheiro das amoras silvestres, pela chuva que cai e no chão da terra desenha um mapa.

Os pastores tocam flauta como se fosse assobios de anjos. olha meu filho, vê os cavalos no expoente máximo da liberdade! pede ao arcanjo miguel que assim sejas quando fores grande. dar-te-á asas se à noitinha se lhe pedires conselho.

não temas a noite nem tão-pouco o uivo dos lobos. eles são ventos que outrora também foram à escola aprender.
sabias que o senhor Torga passou por aqui e deu nome às pedras e às plantas? sabias que o silêncio da noite é uma pausa para olharmos as estrelas nos seus esplendores?

çalca as botas, chama pela tua ovelha e vai. diz à mãe que acenda a lareira no quintal. esta noite, enquanto sujamos a boca com os grelhados e o eco do riso se prolongar até ao amanhecer, o poço vai encher-se de estrelas.


---
p.s. esta é uma das crónicas que escrevo para o blog: pegadaebota.blogspot.com

Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=48751

É - flavio silver -

É urgente um colchão no centro do quarto
Um copo de água para evitar maus hálitos
Um cigarro de marca detroit para depois do café
Uma cerveja paga no café do vitor
Um talismã que não sofra de insónias

Uma boleia para o bom jesus afim de cumprir uma dúzia de promessas
É urgente vinte e cinco cêntimos para enviar uma carta a um amigo que está lá fora
Um pau-de-sabão para lavar a roupa antiga
Uma carga de esferográfica para continuar os meus textos
Levantar cartazes com letra vermelha

Um padre que não peça nada em troca de um bom perdão
Uma versão do so i wish you where here
Um fundamentalista à minha porta

É urgente mais literatura
Mais convictos do que convexos
Um almanaque do patinhas para depois de uma noite desnoitada
Uma casa em que as telhas não voem
Não voem
Não voem
Um par de frangos para depenar no feriado próximo e no depois
Uma mesa cheia de amigos de preferência poetas não-editados
Não-comungados
Esterelizados com poemas da Sophia
Do Herberto
Do Cesariny

É urgente o benfica ser campeão num futuro breve
Uma cambalhota do mundo
É urgente um pedido na câmara para aprovar meu galinheiro
Um hippie que entenda de leis e nos advogue
Uma sevilhana que me convide para o meio da roda

É urgente saber os resultados das minhas análises ao fígado
Um bruxo a dizer que sim que sim que estou salvo
É urgente um beijo universal sem vértices
Sem ter de somar catetos
Um telefonema para acabar com certas descrenças
Descrencinhas
Uma mantinha para o menino que está a chorar
É urgente tornar urgente o que vou dizendo
Um tijolo para iniciar o pensamento
Uma flor para resolver um teorema
Um caminho de ir e voltar
Um véu que nos englobe
É urgente meus senhores um côto que bata na mesa para um basta!


Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=48144

a decisão é sua - flavio silver -

Partilha a cela com os mais duros dos homens. Usou a mesmas calças durante vinte e muitos dias. Cuspiu no prato para que ninguém lhe mexesse no arroz. Praticou peitos e bicips numa barra espetada na parede da cela.

Deixou os almanaques do patinhas para se lançar à leitura de policiais. Os seus sonhos ficaram a setecentos quilómetros de distância.
Parasita só mesmo a saudade.

Tudo porque o juiz lhe informou que nos próximos dezoito anos veria o mundo como vêem os animais do Zoo: através de uma pouca abertura para entrar o sol: na prisão.

Dizem que matou, que estripou, que disparou um sei lá número de balas. Toda a sentença foi repetida pela voz do povo em tom de víboras. E as provas? As marcas que o até mais exímio assassino deixa, nem que seja por vaidade?

O povo comenta o que vê pela televisão e é sabido que as suas línguas se tornam bífidas: com duas opiniões. Sim e não. Com o sim à condenação em tom mais avolumado.

Não havia como enganar, ele tinha passado no mato áquela hora, naquele momento, as suas pégadas ainda lá estavam bem salientes mais frescas do que a passagem de um urso. Os ganos partidos e neles uns poucos de cabelos. Quer melhor prova do que isto? Vamos condenar já o gajo antes de o ouvir dizer pela voz dele que é inocente?
Mas ele não fala o que é que queres?! Está para ali feito farrapo que nem para fazer tapete de entrada da cozinha serve.

Era uma vez um homem que tinha duas meninas. Uma delas, a mais novinha, que há poucos dias tinha aprendido a fazer a perninha do A, a letra O tão redondinha como um ovo, já sabia escrever pai e mãe sem ser nos cadernos de duas linhas; veio à rua chamar pelo seu gato Licas, que é tão traquino quanto ela.

Os olhos da pequena daria o maior dos poemas de homenagem, o seu sorriso era de “inventar coisas novas”. Saiu à rua e não mais voltou. Passou-se uma hora, outra hora, mais duas horas e, a noite já era.
O seu pai foi em contra-dança procurar a sua pequena, com o medo à superficie da pele. Procurou em todos os lugares prováveis e improváveis e não a viu.

Até que se lembrou do fulano tal que dava brinquedos à rapariga, que lhe metia rebuçados no bolso e, não, não pode ser!, a minha menina é de oiro, ninguém é capaz de lhe dizer anda comigo ali que eu tenho uma coisa boa para ti.

Enfureceu-se de tal ordem que os seus dentes feriam o lábio inferior, os seus olhos tomaram a cor de Hiroshima. O seu coração, não era coração, mas sim uma moto-serra.
Foi ao mato. Viu o que viu: a perna da rapariga à mostra, os seus pequenos peitos a serem tocados, o monstro a salivar, com as calças em baixo, todos os horrores dentro do mesmo plano.

STOP

Agora é a sua vez de contar, de agir perante esta situação.
Vou dar-lhe apenas uma arma carregada.
Faça de conta que você é o pai da criança, dentro deste cenário: como uma arma carregada na mão, o monstro à sua frente, os seios da menina, que não são seios, sendo tocados, o grito de socorro da menina mais forte que a vida, a noite sempre noite, o futuro como lâminas transparentes, o coração: uma cadeira de baloiço alucinante, pai, pai, paaai!!!

A menina chora, todo o mundo chora, o fado chora mas não é assim.
Agora que tem a arma carregada não mão, um segundo por dezoito anos, a sentença no indicador, agarrado ao gatilho, os anjos neste momento não são para aqui chamados, isto não tem nada a ver com Deus ou com o Diabo, vem-te à memória aquela história do não matarás, fios e agulhas no pensamento, pronto eu saio aqui (mas não por cobardia!), a decisão é sua.



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=46914

Visões, quem não as tem?! - flavio silver -

Visões?, quem não as tem?!
Em toda a minha vida de pernalta, já tive várias. Desde a descoberta do fingimento do orgasmo até ao pensar que o melhor figo é aquele que vem parar direitinho às mãos.

Desta vez foi quase verdadeira a minha visão.
Era noite. Pouco depois das duas da manhã.
Uma sombra em passo tosco acompanhava-me. Só depois descobri que a sombra era minha.
Ao virar a esquina da mercearia do Vilas, mesmo ao pé de um lampião de fraca luz amarela, ele lá estava: um ser esverdeado, deambulando pela rua, reflectindo uma luz de prata, equivalente aos olhos da morena que esteve comigo no motel do Barradas.

Meus olhos já me enganaram, mas desta vez posso garantir que não. A poucos metros de mim estava um ser iluminado, meio curvado, talvez pelo cansaço da sua viagem, talvez sua ossada seja mesmo assim. Do seu corpo saía uma bafagem de névoa quente que o envolvia, desfazendo-lhe os contornos do corpo. Nunca vira ser tão estranho pelas redondezas.

De repente começou a trautear uma canção e, eu jurava ser o refrão de um desses parolos que dá na televisão. Já andaria ele por cá na Terra há algum tempo ao ponto de aprender o nosso vocabulário? Será dos que rapam o tacho na esperança de um Aladino?
Lembro-me que tremi feito canavial em hora de vento acelerado.
Mas, apesar da força do medo, mantive-me quieto, sem deixar escapar o mínimo gesto a declarar a minha presença ali.

Observava o ser estrangeiro com a perspicácia de um detective, camuflado por entre os arbustos, com umas rezas miudinhas para que um péssimo veredicto não sobrasse para mim.

O tal Ser, puxou de um SG Ventil que o tratou logo de o consumir, com sua bocarra a descair para um dos lados.
Dei mais um trago na botelha de gim que sempre me acompanha no bolso de dentro do casaco que, após boa decilatrada pelas goelas abaixo, confirmou o meu estado de consciência.

Pensei em meter conversa com o E.T., afinal esta seria a grande descoberta do século XXI; estar cara a cara com alguém que apenas habita em nossos pensamentos não é inventar um 13 de Maio.

Até tinha uma série de perguntas para fazer, ou, uns golpes de karaté se a coisa desse para o torto.
Num ápice, anulei as duas hipóteses e, fui observando a postura do tipo verde que, de quando em quando, apanhava uns objectos do chão (cartões, plásticos, pontas de charros, garrafas vazias, soutiens rasgados, camisinhas tamanho pequeno e até alguns molares), para depois os meter numa espécie de carrinho espacial.

Facto número um: todos os movimentos eram estranhos. Facto número dois: a chegada de outro ser esverdeado confirma o facto número um.

Quando o outro chegou, trocaram entre eles palavras mais afiadas, num idioma de quem tem faltado a muitas missas.
Falavam de um lance que o árbitro não assinalou, que o meu clube de futebol é melhor que o teu, que o nosso Primeiro é isto, que a democracia já não usa cuecas, que se não fossem a chegada de algumas brasileiras teriam de brincar ao cinco contra um.
Depois riam-se como abéculas medonhas a fugirem para as suas tocas.

Farto de não entender aquele aparatoso teatro, resolvi, como que puxado pelo sangue quente que me corria nas veias, chegar-me bem perto deles, sem recear nem duvidar.
Quando a minha decisão estava convencida a ser, a ter um tecto, passou por mim um camião iluminado que parou junto dos seres verdes, com duas listas brancas horizontais na roupa que traziam e, levou-os.

Parei meu relógio interior e, posso até jurar mas, por falta de provas, não o faço, porque, ainda hoje fico a pensar se aquele camião que levou os Seres dali para fora seria uma nave espacial ou se seria mesmo o camião da câmara municipal que andava a recolher o lixo à noite.
Não sei não.

Da próxima vez que isto me acontecer, terei de poderar todas as hipóteses para que não me chamem lunático. Visões, quem não as tem?! Até o pardal quando lança bitaites à pardaleja, vejam lá!

Mas, meus senhores, minhas senhoras, minhas musas, minhas culpas, não adianta puxar lustro aos olhos porque a coisa é fácil de se ver, que eles andam aí, andam!

- Valha-nos Jesus, Nossa Senhora, ia jurar que ouvi alguém falar em aumentos salariais, reduzir impostos...
- Visões, meu amigo. Você continua com visões!
- Quem está aí? Responda! Socooorro, tenho um ministro dentro do sapato!
(a voz do povo):
- Cal-ça! Cal-ça! Calça o sapato!
(meio segundo de reflexão e...):
- Splash!!Plaf!!!

Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=46525

a estrada termina onde a solidão não teme - flavio silver -

O vento agita as árvores, as árvores quebram seus ramos. Seus ramos quando ganham a velocidade da queda-livre tornam-se pesados.

Cá em baixo, na rua, vem um automóvel de passageiros: dois à frente e dois atrás.
Acordaram cedíssimo para preparar a merenda e para evitar o trânsito na via rápida.
Vão com destino a Fátima. Cada um fez uma cruz antes de se ligar o carro.

O sono das pessoas vai-se perdendo a cada quilómetro. O tempo não é obstáculo para a fé.
A chuva pouco importa.
Os vidros estão fechados, o desembaciador está ligado. A música é feita pelos que vão dentro do carro.
A respiração substitui a sofagem.
A dona Quinhas espera que o seu marido se endireite daquela vidinha que todos conhecem, com dúzias de orações ao pé da Nossa Senhora.

A dona Arminda com quatro velas quererá certamente ver-se livre do mal da figadeira que os médicos dizem não há nada a fazer. O condutor é pobre a pedir e pede apenas felicidade. A sua mulher, a dona Cândida, vai pelo passeio, embora o reumático lhe faça acreditar mais em milagres.

O vento agita as àrvores, as árvores inclinam-se mais não caem. Seus ramos agitados provocam ligeiras alucinações. O automóvel de três ou quatro toneladas é um brinquedo nas mãos da desgraça.
A trovoada é uma lâmpada quase a fundir. A estrada termina onde a solidão não teme. Todos rezam em uníssono apelo.
Deus está em áfrica. Se não está, devia de estar. Os terços nas mãos das mulheres ganham outra dimensão.
O medo é um bisturi apontado ao coração. A semente é a semente. Dez da manhã na IP5 não são dez da manhã no Cambodja. Mas o efeito é o mesmo.
Um morto aqui é um morto em todo o mundo. As notícias correm mais que um veleiro.
O sangue é um juiz de fora. A religião mete os pés debeixo da mesa. Três mulheres e um homem iam com destino de fé. Não chegaram lá porque um ramo grosso e mudo caiu. Furou a chapa do automóvel.
O condutor teve sorte graças a Deus. As mulheres, a ver vamos se a medicina tem tanta rapidez como o ramo que caiu. As contas do terço espalhadas no tablier. Mas não vale apena fazer contas.

Será que deixaram de sofrer de uma vez por todas? Onde está escrito que a dor é passageira? Por favor, não peças mais do que a felicidade. Já é tão alto o cerco que para lá das nuvens não vejo boi. Escuro. Escuridão.
De quem é a culpa? Ah, já sei! A culpa é do electricista. É sempre assim.



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=45981

a beleza faz-nos pensar mais um pouco - flavio silver -

Posso dizer que há o vício do poker, o vício da amante, o vício de ler Fernando Pessoa, ou té mesmo o vício de ir ao rio e tomar banho nu, mesmo de Inverno.
Na sala de espera do consutório ele não consegue evitar e dá um peido.
- Um porco é o que ele é!

Imagina agora alguém a discursar numa conferência de altas patentes do estado e, o discursante, ter de interromper o seu discurso para dar um traque silencioso. Ou barulhento, se for caso disso.

Na sua pequena aldeia todos lhe chamam nomes feios, todos lhe dão um cachaço quando ele não consegue evitar.
- Está-lhe no sangue! – Diz o Arménio que começou a cursar filosofia na faculdade.

Claro que também há injustiças no corpo humano. Por exemplo, e quando perdemos a fala para dizer nosso nome, nossa morada à menina do balcão da segurança social?! Só porque ela é bonita.
Porque a beleza faz-nos pensar mais um pouco.
A feiura não, ficamos rudes de expressão. Como se imitassemos a pessoa que é feia e que está à diante dos nossos olhos.

- Ele é porco, feio e cheira a cavalo – Diz o dono do café que já está farto de lhe dizer que vá para casa tomar banho.

As coisas são o que são e cada um nasceu para aquilo que nasceu. Por este meio literário conheci muitos porcos, muita gente vendida por um livro na montra de uma conhecida livraria. Os ricos não comem sabonetes. Acabemos com o mistério. Nem os pobres fazem sopa com a água que sobrou do banho.

Um dia diagnosticaram-lhe uma doença degenerativa e, da vida até à morte foram dois meses a injectar remédios sem solução.
Morreu sem uma última vontade: calar a música que havia dentro de si.

A pequena aldeia ficou mais calada pela perda do bombo da festa, no entanto, não demoraram nada a elogiarem outro badameco para as suas distracções. Só que este, não dava puns.
Este tinha a pila comprida e chamavam-lhe o rodinha 28. Estão mesmo a ver a reinação!




Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=45855

os homens não pensam, viram tripas ao pensamento - flavio silver -

As paredes do seu prédio não são paredes do seu prédio, são telas de cinema.
Ontem viu o batman, o cavaleiro das trevas, antes de sair nos cinemas.
Ou seja, a ficção antecipa-se à realidade e deu por si num formato de guerra das estrelas na parede do seu prédio.

Antes que alguém venha dizer que inventou uma vacina para isto ou para aquilo, ele já sabia. Antes que uma guerra desperte em terras de pouca fartura, já ele tinha fechado os olhos e tapado as orelhas.
Claro que ele não pode prevenir ninguém que às xis horas uma bomba vai-lhes entrar pela sala adentro. O destino não o deixa interferir. Ai se ele pudesse! Primeiro os violadores depois algumas pessoas que só lhes conhece o nome e o cheiro das camisas lavadas. Levariam tantas e tantas que a roda da terra se endireitava.

A parede do seu prédio é um plasma sempre aceso. Festejou durante dois dias o beijo que ia dar à morena do sétimo andar. Ele já sabia que ela não dizer que não.
Um dia contou ao médico sobre a parede do seu prédio e ele receitou-lhe uma saca cheia de comprimidos.
- Você tem de ser tratado, já! – Disse o cabrão do médico que, se ele soubesse algum truque de bruxaria, aplicava-o logo.

Por favor não contem a ninguém que a parede do seu prédio dá-lhe todas as previsões futuras. Escusais de lhe pedir a chaves do totoloto ou do euromilhões porque isso está fora de questão. Pois o destino não interfere em numerologia.

Sacanas! Que estariam vocês por esta altura a pensar?! Em roubar-lhe todos os segredos?! E os sentimento, onde cabem? Onde cabem as peças que jogamos à sorte do futuro? Para que serve afinal o mar-alto?

Não vêdes que o homem sofre por saber que aquela criança será apanhada de surpresa pela violência de um vírus fatal! Não sabeis que o homem curva-se perante as àrvores derrotadas pelo vento? Podia ser um Cristo, alguém que vê para lá do que se vê, ou um maníaco como lhe chamam.

Este sacana é louco mesmo, anda por aí a dizer que o prédio da frente vai explodir. Que já viu tudo antes de acontecer. Ao revelar acontecimentos futuros está quebrando contrato. Ninguém quis saber. Deram-lhe tanta porrada para ele se deixar de armar em adivinho. Tanta que o homem não aguentou o pontapé na barriga e ficou-se, estendido no chão, feito cão morto, sem denunciar gota de sangue.

Ninguém deu pela falta de sangue, é horrivel não haver sangue numa luta. Assim não dá para testemunhar o grau da estupidez.

Dois dias depois, nem mais, uma notícia de última hora invade as televisões: um prédio explodira dado a uma fuga de gás.
Fizeram os cálculos da tragédia e foi um desconsolo: três mortos, dez feridos e uns tantos sem ter como se virarem.

Entretanto, o dito maluco sofria no hospital, quase a esvair-se, sem poder tossir nem falar. Apontou para uma carta que tinha no bolso de dentro do casaco.
A enfermeira fez o favor de ler em voz alta para toda a equipa médica, padre e um jurista.

Após tímida leitural, chorou, como choram as viúvas dos pedreiros. Olhou para o homem estendido na maca, já ele estava semi-frio tal o perú que talhamos na ceia de Natal para os que chegam atrasados.
Pois o homem já tinha assistido à sua morte na parede do seu prédio e sabia que o choro da enfermeira é igual ao que será o choro dos seus filhos quando perguntarem por ele.

Na carta dizia que era exactamente assim: que os homens não pensam, viram tripas ao pensamento.


Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=45761

Na arte o que é deformado tem mais valor - flavio silver -

A verdade não pode ser contada em soneto. Nem numa cantiga de amigo. A verdade é um sim ou não.

O humorista tem de estar preparado para rir, fazer de conta que, armar-se em pateta, coçar o pêlo do nariz, fazer o quatro e cair de cu, etc, mesmo que no dia anterior à sua representação, tenha levado um excerto de porrada por meia dúzia de ciganos. Nada contra os ciganos. Metaforismos.

Então é assim: o humorista assistiu a tudo: desde à rebentação das àguas até aos bebés nascerem. Dois: um menino e uma menina. Assim nesta ordem, sairam do ventre da mãe-preta. Que estava deitada numa banca de pedra fria, a parteira com suas mãos grossas por debaixo do lençol, banhado em sangue, os gritos de alguém que pisa uma mina e que nem pense levantar o pé!, a boca mordendo uma rodilha da cozinha, seus olhos lagartos meio cêntimetro fora dos côncavos.

O homem pega na mão dela, diz-lhe força, puxa, está quase, vá lá, tu consegues. As dores fazem pregas na alma, estalam a tinta das paredes.
Tudo é normal quando o ponteiro do relógio pára, ou quando a música acaba de repente e o dançarino ainda teria mais passos para dar.

Somos capazes de imitar vozes mas não somos capazes de distinguir em certas alturas o gemido do choro. Mãe-preta será depois de tudo uma canção de embalar.

Após amainar a forte batida do tambor, o menino saiu a chorar e mãe-preta sorriu. Dois minutos depois, a menina saiu calada e mãe-preta chorou.
E todos os que assistiam ao parto comparticiparam no choro.

Os médicos abanavam suas cabeças porque não viram na ecografia que a menina tinha os dedos colados uns aos outros. Mãos de peixe, catalogaram.
Dizer que outros já nasceram assim não tira a dor.

Haverá um país que os separe, mas para isso é preciso muita solidariedade, em caixas improvisadas, para colocar nos cafés da beira, e a fotografia da menina a cores, dizendo adeus com seus dedinhos de desenho animado.

Na arte, o que é deformado é o que tem mais valor. Na vida real é o contrário.

Todos ficaram tristes durante dias e dias, transferindo a menina daqui para acolá em busca de uma solução, excepto pai da criança que, para sobreviver, tinha de fazer rir as pessoas num bar até às duas da manhã,
de cara pintada e nariz vermelho,
enchendo o copo de wisky,
emborrachando-se,
caindo de queixos no chão,
gozando com Deus, e todo o público aplaudindo, mijando-se de riso, e a vida dentro de um cubo de gelo esperando que a alegria o faço derreter.


Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=45707

corações sem bocas-de-incêndio - flavio silver -

O sol bate nas pedreiras como o aniz em teu rosto orvalhado. a densidade cósmica quando tocas os lábios na toalha da tarde adia a greve

imagina o que seria da tempestade sem obstáculos para derrubar. ou corações sem bocas-de-incêndio

como o vinho azeda também as pernas perdem os seus jeitos náuticos. as aves perdem a permissão de repousar nas linhas telefónicas.
a cal para sempre nos bidões.
o mar sempre mais além. a literatura resumida a uma estante de sonetos vazios.

não olhemos as marés como sequestros. as árvores que sonhamos darão um dia ameixas pelos beirais


Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=45390

Painel controlo
  • Email:
  • Palavra-passe:
  • Lembrar dados
  • Ir administração


Visitem
Poesia
PUBLICIDADE



Shiro


Anedotas
p: já sabem aquela do alentejano que estudou cinco dias para o teste de urina?
Procura
Últimas Photum
PUB





GreenWich


Kids


Estatísticas
Visitas (Acum./mês)
23 / 21
 
Visualizações (Acum./mês)
1051 / 979