José Torres
Há dias em que me obrigam a escrever - josetorres - 01Jul2008
Há dias em que me obrigam a escrever. São dias que não abrem, porque se fecha neles a luz. São dias emaranhados.Hoje foi um deles.
A escritora de quem eu já tinha ouvido falar enquanto pessoa, mas nunca nessa outra condição, estava sentada perto de mim numa espécie de “espectáculo” literário feita à medida de quem fala pelos cotovelos.
Sexagenária que não parecia, assim que descobriu quem eu era enquanto escritor, abriu de espanto a boca, mais ainda porque mal me conhecia de outra maneira, e logo tratou de me “confortar” com um: “…Isto está bom é para si que está a começar…, eu iniciei tarde…”
Confesso que me caiu mal.
Já antes, um poeta meu amigo, que também estava presente naquela sessão pouco inteligente, cansativa e monótona pelo tom umbilical de que enfermava, tinha recebido igual tratamento: “…Gostei do que ouvi, continue agora que está a dar os primeiros passos…”
O meu amigo ainda lhe disse que escrevia há 20 anos. Eu não.
Houve no entanto quem não estivesse ali a angariar subsídio, nem a esfregar o ego. Houve genuínos e verdadeiros, que são aqueles que não precisam de pedir nada. Alimentam-se de escrita.
Esses poucos, talvez mesmo um só, disse pela garganta pesada de escrita de mais de 40 anos, um poema seu palavra a palavra dada. Disse-o sabedor da dor, disse-o ofertado, de cor e salteado.
Impressionante esse que é amigo de meu pai, de certa forma meu irmão.
Conhecemo-nos desde sempre, que desde sempre esse amigo de meu pai, me acarinhou, me considerou, me fez sentir que sabia de que dor eu enfermava quando tinha 20 anos.
Hoje quando lê ou houve dizer poemas ou textos meus, o brilho dos seus olhos é tão verdadeiro como então. A sua amizade genuína.
A palavra não é um bem de que qualquer um se possa apropriar. Não é edifício fácil.
As bases estão cheias de um lodo humano fabricado em conluio com a permissividade, a indiferença, o ódio.
Não basta escrever palavras, não basta ser imaginativo para as ordenar, é preciso virar do avesso a alma para tentar encontrar as raízes, é preciso precisar constantemente.
É de uma perfeita idiotice aquela expressão de um autor consagrado da minha cidade que disse: “…quando tenho veia poética escrevo…”. É quase uma ofensa. Não se tem veia poética a dias separados ou intercalados.
Corre o sangue da poesia em quem não tem veia nenhuma. Nada é, rigorosamente o que parece.
Agora que ando a dar primeiros passos, nisso a outra senhora de nome terminado em “ette” tinha razão; primeiros passos editoriais, percebo finalmente como se fazem estas coisas da cultura…
E como percebo, faço de conta que entendo, e o que é curioso é que entendo mesmo, e isso parece bastar-me.
Obrigaram-me a escrever. Eu hoje se calhar não queria. Mas agora que o fiz, agora que olho por cima do ombro, parece a madrugada estar a gerar um novo começo, e eu a adivinhar no escuro a claridade desse novo dia.
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=42471
Mundo ao contrário - josetorres - 26Jun2008
Tenho um calo que é todo ele perfeição. Nasceu num enclave de noites percorridas, calçada após calçada, calçado nos passos repetidos sem noção.Tenho que não me calo pelo meu calo que é uma perfeição tê-lo.
Tenho…um calo no hipotálamo.
Anda de baloiço uma menina nele, que cresce à medida que se vai. E quando se vem, já é mulher e o baloiço um filho, movimento ao contrário da vida.
Vem e vai um dia também ele.
Tenho para mim um calo. Espécie de ilhota no mais mindinho de mim, Liliput de todas as viagens a começar num dedo, todo ele fininho.
E sem medo o coço de todas as coceiras a começar. Coço-me de me coçar encostado a todas as soleiras, começo-me até do que falo.
Porque falo fadando-me, fado-me cantando e não há quem me fôda!
Mundo invertido, uma espécie de calo, uma razão freudiana, cuja raiz é a razão toda.
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=41914
Estavam sentados ainda agora na minha sala - josetorres - 26Jun2008
O Mário que está sentado na minha sala com o Chavez, qual octogenário prozac, qual paladino das causas impossíveis, dando corda ao outro, que segundo dizem masca coca; é o mesmo Mário a preto e branco da revolução falhada de Abril passado, é o mesmo filantropo que se diz agnóstico, é o mesmo da fundação desta estranha coisa que se chama memória curta.Um dia vi-o a cavalo numa tartaruga. Ai se ele mascasse coca…
Já o outro, que é pior que cem mil barris de petróleo em fogo na fraca dedicação que damos às coisas que nos envenenam, na fraca memória da sucessiva indiferença de todos perante o sistema capitalista que nos consome, usa e abusa de um discurso impossível, talhado numa amalgama de cristianismo bacoco com livros de cabeceira que nunca leu, armado de um sul americanismo unificador, que duvido, mesmo com a complacência de Saramago, possa algum dia que seja, soar a verdadeiro.
O Mário e o outro que não se cala, encheram a minha sala de um discurso mais improvável que aquele do vendedor de banha da cobra que em casa tem uma família para alimentar. A razão de ser do seu malabarismo de palavras é um desculpável deslize do incauto que aproveita, é o outro na sua própria sobrevivência.
Já estes que dividem o mundo em fatias, que citam quem não deve ser citado, nunca na minha sala haveriam de estar sentados.
O quê?!, já acabou!
Então muda para a dois.
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=41252
Azul - josetorres - 26Jun2008
As palavras embebedaram-se de azul.De um tão céu, que á beira dele, o mar parecia aguada de tinta, e havia nesse tom marinho de céu um azul.
Um azul que tirei pela pinta, negra de todos os brancos que nunca foram imaculados, azul de todos os voos nunca feitos.
Eu tinha um olho dessa cor, o outro estava em ti, lia-te.
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=40921
O doce prazer de não escrever - josetorres - 26Jun2008
O doce prazer de não escreverLi durante anos o poema do Pessoa:
Liberdade
Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...
Fernando Pessoa
E acreditem, precisei de levar a escrita a sério para o entender. Perdi mesmo a conta às vezes em que me deleitei na sua leitura, enfim…sem o entender.
Hoje, quase que se entranha em mim, e senti necessidade de o ler mais uma vez, recuperei-o nas minhas viagens com prazer.
E que prazer não ter que escrever mesmo fazendo-o.
A culpa é tua Fernando, é tua da admiração que tenho pelo que me deste, pelo que nos deste de forma tão profundamente original.
Vivo sem ânsia alguma sabes?
O poema visita-me sempre que lhe apetece, renova o meu sangue, filtra os meus medos. Não tenho com ele segredos.
Hoje é dia do teu país que ainda não se cumpriu, é dia de cumprir mais um dia. O presidente anda por Viana e os aviões assobiaram toda a manhã por cima da minha casa, ensurdecendo o som da minha máquina de cortar a relva.
Sabes quem rasgava os céus?
Eu. Montado na minha máquina de cortar o mal pela raiz, montado na certeza que tenho hoje. A certeza de que não tenho certeza de ter certeza nenhuma.
Só o poema.
E não sabes o quanto isso me alegra e o quanto isso me basta.
(desculpas o plágio...)
Hoje é o teu dia Fernando, mais que o de Camões.
É dia de cumprir a ilusão
Quer D. Sebastião venha
Ou não.
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=40415
A página branca perdeu as asas - josetorres - 26Jun2008
A página branca perdeu as asas. Não traz no bico paz, muito menos um céu claro.Um Homem feito estátua, feito de pedra nas palavras que não disse, espera ansioso que o pássaro inquieto do tempo lhe aponte o caminho, lhe segrede razões de voo capazes de o fazer quebrar as razões de mármore do seu imobilismo.
Pergunta-se se foi praga estranha que lhe rogaram, assim capaz de lhe cortar em silêncio os pulsos e a língua, vinda de dentro do peito a faca, vinda de dentro do tempo a mágoa, mas não encontra respostas.
Jaz, como jazem tranquilos, todos os que perderam os passos nos passos tranquilos dos pássaros que nunca voaram.
No fundo de um poço vivia uma lenda.
Havia uma mulher que por ciúme não dormia. Vigiava até os olhos lhe doerem os passos do seu amado.
Um dia, ensonada, seguiu o seu homem por uma mata vizinha à casa, até este parar junto a um poço agrícola.
Escondeu-se por detrás de um grande carvalho, esfregado os olhos de um cansaço quase insuportável, para que pudesse finalmente apanhar em flagrante o traidor.
Reparou que este se sentara na beira do poço, porém, apesar de falar com alguém, a enciumada mulher não conseguia vislumbrar a pérfida amante. Pensou que tal cegueira se deveria ao facto de quase não conseguir manter-se de pé, tantas eram as noites sem dormir, tamanha era a desconfiança.
Acercou-se um pouco mais, agora protegida por um penedo que se encontrava a escassos metros do local onde o homem se sentara.
Dali conseguia ouvir mais claramente aquilo que dizia, olhando para dentro daquele olho de água plantado no meio do terreno.
- Sabes, tenho a sensação de que a minha mulher desconfia de alguma coisa…Não dorme durante a noite, como que vigiando os meus sonhos. Sinto-a em todo o lado. Agora mesmo, tenho a sensação de que me espia…
- Não consigo viver assim, estou a um passo de a deixar…
A mulher quando ouviu estas palavras, saiu furiosa e descontrolada detrás do penedo correndo para o flagrante. Porém, quando de braços abertos tentava apanhar os seus fantasmas, tropeçou numa pedra que estava perto e tombou bem dentro do poço fundo, ouvindo-se o barulho da queda num som estranho que chegou em eco até à superfície.
O homem ficou estático, sem reacção. Depois chamou pelo seu nome, mas o som bateu nas paredes ovaladas e regressou até à boca, largo.
Ficou quieto, estranhamente quieto, e pela primeira vez na sua vida, mudo.
O escritor já não escreve. Uma vez mais as palavras levantaram voo deixando a sua página vazia.
Sente os pés a ficarem dormentes como pedra, um veio de morte a trepar rápido por si acima. Pernas e braços incapazes de esboçarem qualquer reacção. Depois, os músculos do pescoço a retesarem-se, os olhos a perderem o brilho, baços.
Um pássaro poisa no seu ombro e defeca nele.
As estátuas são definitivamente o sítio preferido dos pássaros fugidios da escrita e o tempo um poço sem fundo.
Já alguém perdeu nele uma mulher?
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=40029
Escrever é também não o fazer - josetorres - 26Jun2008
Às vezes não faz falta escrever. Basta que se vão escrevendo os dias com poemas, com textos falados, onde caibam a amizade, a generosidade, a partilha e o amor. Onde caibam os seus opostos, que não podem deixar de ser pensados e ditos.Às vezes quando estou com o Lourenço, e repetidamente esquecido lhe pergunto se tem escrito alguma coisa, responde-me sempre da mesma maneira:
- Eu escrevo todos os dias na minha cabeça, o que tinha a dizer em palavras de papel já disse. Escrevi um único livro e basta-me.
Sábado passado, depois do jantar e já no digestivo, foi ainda mais solene:
- Eu já tinha escrito a escrita…Tudo o que fiz foi recordar-me de um outro tempo, de um outro lugar.
Eu, no fundo, faço-o de propósito, confesso. Sempre lhe pergunto do andamento das suas palavras, para que me lembre da sua resposta todos os dias, e me continue a apetecer escrever, gravando os signos.
Faço-o como se talhasse madeira, esculpindo letras e palavras, faço-o como se pintasse telas, faço-o todos os dias da minha vida como se não soubesse fazer outra coisa e não me tivessem sequer ensinado.
O Flávio por exemplo, é um exemplo de escritor compulsivo. Defensor de uma escrita automática ou quase, guarda num escritório atravancado milhares de páginas de escrita. A semana passada mostrou-me três ou quatro grossos volumes de letras de música que escreveu quando trabalhava como guarda-nocturno. Impressionante.
Apesar do aspecto desarrumado do seu local de escrita, sei que é imensamente metódico e organizado.
Já o Gonçalves, que para mim é um Marco, meu amigo de muitos anos de palavras e copos, guarda os momentos que lhe apetece dizer em caderninhos, que depois, no final da noite, sempre que o álcool já deixa uma espécie de “rastro fulvo”, me dispara mortífero rematando:
- Eu sou o maior poeta vivo!
E eu acredito.
Nunca editou, embora ultimamente a Internet lhe esteja a mudar os hábitos.
Recordo-me também de por vezes, em completo improviso, eu e ele, dizermos poemas fantásticos escritos na hora, e de nos rirmos desatados quando os víamos ganhar pernas rumo ao esquecimento, velozes…
- Devíamos ter um gravador incorporado!...
Dizemos isto a nós próprios como consolação. Mas logo rimos.
O poema não nos pertence, não pertence ao escritor.
Eu penso assim, e pensam assim muitos amigos que tenho.
Ontem mesmo, li um maravilhoso texto do António Paiva sobre estas questões, um alforge de respostas que me deu e deu a quem o lê, de forma absolutamente coerente e verdadeira, e pensei:
- Se para conhecer a verdade é preciso duvidar, se para acertar é preciso errar, se para amar é preciso conhecer a falta do amor, se a própria felicidade se deita com a dor, então, para escrever é preciso, antes de mais fazê-lo, e que o seu oposto seja verdade também.
Caminha-se de facto caminhando e seja o objectivo chegar.
Já o poema, esse ensina-nos sempre a partir rumo a outro lugar.
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=39557




