Valdevinoxis

27ª foto - O escritor esgotado - Valdevinoxis -

Há uns dias para cá que o escritor se anda a sentir morto, sem vontade de respirar as letras da forma viva que sempre fez. O sentimento é real e apalpa-se em todos os pontos, mesmo nos que não se vêem. As frases são desconexas e até brutas, parecem todas lugares comuns copiados de outros lugares comuns e não dizem nada que se ouça. O escritor quer escrever, força-se a escrever, tenta manter-se longe dos contágios mortíferos e fáceis mas, tudo o que vê, lê ou produz parece inquinado, envenenado e baço. Dói-lhe a escrita e ninguém sabe.
Rodeado de sins e nãos, nenhum lhe parece verdadeiro. A paranóia é legítima e põe-lhe a verdade à prova. Os outros escritores seus amigos mordem-no, porque escrevem e escrevem e escrevem e ele já não os lê como lia. Não consegue.
Há uns dias para cá que o escritor se interroga se deve continuar. Se lhe vale de alguma coisa fazê-lo. Lá continua por vício.
Não há nada que lhe diga que o seu esforço vale a pena e, ele, não se adequa a uma forma que não é a sua.
Há uns dias para cá que nele não se sente mais do que um escriba.

Valdevinoxis



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=49065

É a vontade quem mais ordena - Valdevinoxis -

Matem o mundo. Cravem-lhe uma faca bem fundo. Matem-no que está imundo e enferma de profundo desejo de morrer. Matem o mundo e com ele o querer fecundo de eternidade comum a todo o ser redondo.
Matem-no, matem-no num caldeirão sem fundo que ferve por fogo vivo aceso por temidos pecados mortais que são tão naturais como a vida e a morte.
Matem-no bem morto, façam do direito um defeito torto e sem retorno, sem retorno.
Matem o mundo e enterrem-no bem dentro de si.

Valdevinoxis



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=48903

Coisas só desta forma de estar - Valdevinoxis -

A colocação de enfeites redondos sobre a forma mais quadrada que cabe nos olhos, mostra que é possível a uma mentira parecer um engano encantador.
Ontem, queria que o comboio não tivesse carruagens, queria que fosse uma enorme e forte locomotiva em que todos atirassem pedras de carvão para o mesmo forno. Hoje também quero e amanhã também vou querer mas, tenho receio... existem muitos fornos e já vejo algumas carruagens.
Se pareço maquinista, é porque estou bem adornado. Se não pareço, é porque não sou e descanso anónimo numa mentira por engano.
Digo o que digo para não dizer mais e fico parado a observar diferentes e iguais.

Valdevinoxis



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=48784

o grito é uma linguagem universal - Valdevinoxis -

alonga-se o braço
para se destacar das mãos,
de todas as que não são a sua,
para sobressair num jeito crónico
do aceno pedinte que afoga os irmãos,
numa busca estúpida para tocar a lua

se é mesmo preciso...
que se toque a lua, então!
que se toque a lua e mais que se veja
que se toque...
que se toque e pronto.

mas não se acolham os já cadáveres,
os já estrangulados por dedos e demo,
os que que não se destacam das mãos
para continuar no fito clássico da espera.

Valdevinoxis



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=48469

26ª foto – O Leonel é um tipo porreiro - Valdevinoxis -

- "Estou expectante. Aguardo sentado para ver o que vai acontecer. Não há nada que queira fazer para tentar condicionar o que se avizinha mas estou preparado e já tenho decisões pré-estabelecidas. Uma espécie de formulários em que só falta a minha assinatura.". Disse-o a uma pessoa amiga, no tempo em que comecei a deixar de acreditar nas pessoas. – Murmurava, o jovem, para cima do lápis.
Em conversa com uma folha de papel, o Leonel soltou o que lhe ía na alma e despiu-se. Ficou nú. Até o fazia com uma vontade natural mas, desta vez, fê-lo por necessidade, porque precisava de dizer o que não queria que outros ouvissem.
As pessoas são todas humanas e, por isso, desiludem-se umas às outras de forma crónica. É caracteristica inerente a ser humano. O Leonel sempre foi um crente, em si e nos outros e como qualquer um, tinha a consciência de quando fazia asneira, de quando deixava outros em posição difícil. Desta vez adivinhava o contrário, alguém que não ele, ía fazer asneira.
- Sabes que eu já estive na mesma situação? - dizia-lhe em confidência uma amiga querida - Sabes que eu também já me desiludi com as pessoas?
- Sei amiga, confirmas aquilo que já sabia mas em que não quero acreditar. Tudo tem evolução. Pode ser que seja isso. Sinto tristeza mas, também, o que é que se pode fazer? É assim, foi assim e será assim.
Lá no seu imo, o rapaz, sabia que pouco havia a fazer, que no máximo podia ser teimoso mas, também sabia que se o fosse, ía acabar por se desiludir mais ainda. A amiga compreendia-o e nem por isso se sentia confortado, era qualquer coisa que não sabia explicar, uma frustração que lhe fazia doer tudo... da vontade ao orgulho.
A espera por algo que lhe contrariava o bom senso e que, por antecipação, já era um dado adquirido, danava-o de impotência.
A bonomia de Leonel dava-lhe sempre um sorriso sincero e, era o que lhe valia, pois não o tinha só na cara. Era a sua força, era aquilo que lhe compensava os desagrados e que não deixava que outros se apercebessem da sua, dizia ele, cada vez maior falta de crença.
As coisas aconteceram e o rapaz voltou a acreditar nos outros. Não foi difícil, depressa se esqueceu das merdas. Não havia jeito, era assim mesmo. Ía voltar a acontecer tudo num outro momento da vida. Não havia mesmo jeito, o Leonel não fora talhado para não acreditar.

Valdevinoxis



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=48141

Ai - Valdevinoxis -

A tua língua tocou-me os dedos... húmida...
envolvi-a de mim com tacto de cetim.

Estiou-se o ar,
sublimou-se a pele
incandesceu-se o ímpar...
o meu e teu.

Ais de suspiro,
súplicas sem ai,
ai ai, amor que se sente
fora e dentro, fundo e rente,
ai de penetração viva,
ai amor de aceitação activa...

Sabes que horas são?
Passa um beijo do amor
E ainda por aqui aiamos...

Valdevinoxis


Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=48106

Poema a um rei vadio - Valdevinoxis -

(poema para gente especial)

O tonto roliço,
largo de viço,
pisoteava as suas trincheiras
com alma de brincadeira.

Muito pouco soldado,
mais perto de rei anafado,
o tolo ria com soltura
quando lhe atavam a postura.

Naquele jeito de alteza
que ao ceptro emprestava a certeza,
respingava com os esbirros
e mostrava a direcção aos cirros.

Oh tonto de sentido mole,
deserto seco de miragens e sol...
oh tonto, bom rei vadio
que se embala em galopes de desvario.

Valdevinoxis



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=47994

extroversão em LSD maior - Valdevinoxis -

(um medo torto e ácido)

por um momento o fascínio
fez-se Circe de corpo inteiro...
coisas da cabeça ou do demo
que se decretam por declíneo
do espirito débil e vezeiro
que se dá ao desacerto mais extremo.

Enleva-se a mente em ciranda corriqueira
que roda e roda e roda, entontece
e cai desamparada na asneira
como se viesse de um cosmo arrevesado
a plantar buracos negros quando anoitece.

Por ali, um gato todo malhado
com malhas de sangue pisado
mostrava um Cristo nos olhos felinos
e ronronava agarrado aos pénis inquilinos
que picavam em tudo... tudo...
e tudo parecia tão mudo.

Vómito cor de rosa!

É vómito cor de rosa
o que emerge dos olhos ulcerosos...
será choro? Será vontade teimosa?
Não, essa ficou em aconchegos ditosos
arrumados lá do outro lado.

Valdevinoxis



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=47711

Pequeno poema triste - Valdevinoxis -

Há mortes que mais valia serem-no,
Deserções que se têm sentido, perdem-no
E formas de estar que me fazem sempre doer.

Não escrevo estas palavras para as voltar a ler

Valdevinoxis


Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=47633

Ora! E se fores... - Valdevinoxis -

para o poema que te pariu,
sua musa voluptuosa,
coisa inspirada que me saiu
a correr da imaginação tortuosa.

Quero que metas o ódio no amor,
que te mates de tanta doçura,
quero bater-te com beijos da forma que for
e que te moas com abraços sem cura.

Ora, vai-te fundir... comigo
de qualquer jeito, a torto e a direito
vai levar com tudo o que de bonito te digo.

Ora! E se enfiares esse teu jeito imperfeito
Na minha vontade de estar contigo
enquanto encaixamos em amor perfeito?

Valdevinoxis


Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=47565

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