Valdevinoxis

Coisas do sabor entre lençóis - Valdevinoxis - 01Jul2008

O doce sabor que salga o amor
degusta-se dentro de uma malga sem cor
evitando-se usar o talher, sempre frio,
que se encosta, vezes a fio,
ao esmalte raro da dentição hiper-sensível
de quem já viveu para lá do crível.

Que coisa tão sentida e sem definição,
que coisa tão indefinida por definição.

O doce sabor solda-se ao enrubescimento
que encarna na pele do sentimento.
Tocam-se mordeduras a arranhar os gemidos,
os sonidos enluvados, estremecidos,
o resvalar entre saliências e reentrâncias
toca-se tudo para longe, bem longe das distâncias.

Que coisa tão sentida por definição,
que coisa tão afirmada e sem indefinição.

O doce sabor lateja em todos os olhares,
cúmplices e companheiros, nos toques pares,
no rosto vivo de todos os pontos descobertos,
na vontade de encostar em porque “sins” certos...
o doce sabor deixa latente o sal que escorre
num deleite se deixa ficar e não morre.

Valdevinoxis



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=42274

Rendição - Valdevinoxis - 13Jun2008

O sabor do calor
Chegou-se ao paladar
Do corpo morno
E fez-se a cor
Mais leve que se pode pintar

Chegou-se depois de vindo
Chegou-se sem retorno
Às mãos de quente amor
Nascido de momentos de ficar

Tocou com a língua dos dedos
No céu da pele aberta
E adentrou por entre segredos
De ternura certa

O calor saboroso
Resguardou-se e ficou,
Deu-se adorado e ditoso
Ao sentimento que o tocou

Valdevinoxis



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=40696

falo da implosão do silêncio - Valdevinoxis - 07Jun2008

implodiu o silêncio em silêncio
entre flores exangues
num solo que de encharcado se extingue
com um intenso gosto magenta.

a língua mordeu, intensa,
ao passo que as cordas vocais,
essas, doem sempre mais
numa forma de voz que morre criança.

ai voz!

que dona feroz dos calados,
dos mudos fechados
entre portas pretas e pesadas,
estanques...
que no fundo até abrem
mas arrojam no chão ao abrir,
abrem sulcos num solo outrora encharcado
que se extingue entre flores exangues
depois de uma implosão de silêncio em silêncio.

Valdevinoxis



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=40041

Carta tão aberta como humana - Valdevinoxis - 07Jun2008

Resta-me o desagrado pelo que vejo muitas vezes. Os desagravos teimosos, as vontades vaidosas ou as provocações com segunda intenção pululam por todo o lado. Afoitas cabras ariscas. São estados e formas de conteúdo pouco elegante mas, de aparência magnífica. São coisas de gente civilizada de acordo com as suas próprias regras.
Um destes dias, ao olhar pela janela do meu quarto vi um dia de sol radiante, cheio de bichos a voar e chilrear e a correr e sei lá que mais. Tudo liso, sem grandes segredos e nenhumas simulações. Lembrei-me que fazemos todos parte da mesma ópera, nós e os bichos.
Fiquei a olhar e a pensar como seria bom se fossemos todos só bichos, porque não os há sacanas. Não seria natural e é preciso ser-se sacana para pensar o contrário. No fundo, seríamos humanos com as regras universais de bichos. Seríamos um hibrido capaz de muitas coisas boas.... corrijo e reformulo, sempre o fomos, só que adulterámos tudo. Enfim, nada mais nada menos do que o humanamente habitual!
Um pouco ao contrário de Midas, tudo em que tocamos transforma-se em merda. Assim é e é-o de uma forma tão peremptória que assusta!
Uma boa parte (se não a maior) das nossas relações e interacções são ruins e conflituosas e, se não são, o mais certo é alguém fazer com que sejam. Inveja. É isso! Um sentimento do mais humano que se conhece. Rancor... outro. Remorso! Este é o pior de todos, porque é o sintoma de que sabemos quando fizemos asneira. Existem, ainda, algumas outras qualidades que nos são, igualmente, exclusivas tais como, por exemplo, a prepotência e a crendice. Meus amigos! Somos humanos e como esses, do piorio que qualquer planeta já teve ou sentiu.
Não me venham dizer que ser humano é ser imperfeito porque aos bichos também não se conhece a perfeição e, tanto quanto sei, não são humanos em nenhum sentido.
Em suma, temos que, ser humano ou apelar à humanidade de cada um, é desejar mal ao que quer que seja. De facto é ser-se, no minimo, sádico... é ser-se lei e infracção ao mesmo tempo. É ser-se, por definição, um potencial inimigo de tudo.

Valdevinoxis



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=40013

Humberto Delgado - Valdevinoxis - 06Jun2008

Sempre foi persistente,
Filho resistente
Velho teimoso de nome teimosia
Que por não quero respondia.

Torto e meio
Meio torto
Deu-se por feio
E acabou morto.

Assim, a morte de um não quero
Surgiu a seguir a um cá te espero
Cheio de promessas vivas.

Terá sido filho de prenhes derivas
De coisas arredias fora da lei
Mas foi amante livre e homem rei.

Valdevinoxis



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=39918

Coisas de um clister habitual - Valdevinoxis - 05Jun2008

O ardil,
o cónico funil,
a feitura feiosa,
a feiura ardilosa
do sacana do hábil
foi obra extremosa
sem arte nem móbil...

mas que diarreia generosa,
aquela que lhe saiu.

Sem olhos na nuca,
era difícil focar
o que atrás se entronca
num corpo que não sai nunca
com pés de andar
ou asas para voar.

E pronto!
Desalinhou-se o tonto
que confiou num compadre
todo solto de comadre
que lhe segurasse a vontade.

Eis que se enchem recipientes
atacados até aos dentes
de perfumada trampa
que teima em não ter campa
onde deitar as costas
ou as primas bostas.

E lá vem mais um ardil,
uma peta de Abril,
para aconchegar a sede viva
de um gozo que não se priva.

Valdevinoxis



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=39666

o esculpido - Valdevinoxis - 02Jun2008

de escopro em punho
de maço bradido
esculpiu-se um escultor
da pedra ao sonho
por artes de vendido
em banca de terno amor

lascas e lascas saltavam
disparadas por som seco
que de música era mudo
e nos corpos difractava

lascas e lascas abalavam
assobiando o ar sem eco
como se fugissem de tudo
o que de frente as parava

de escopro por cinzel
o bruto fez-se sentimento
num aremessado sentido
que adentrava cruel
e num soldado momento
rendeu-se dando-se estendido

Valdevinoxis



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=39390

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