Luso-Poetas

poalha - 19Ago2008

(foto daqui)
***
em todo o poema
existe uma poalha funda
uma luz imaginária
um banco d’areia onde um barco encalha.

eu, sempre tão cautelosa,
sempre tão prudente,
aqui estou à Praça do Império,
donde não partem caravelas
nem regressam astros
nem sequer faunos s'avistam empunhando tridentes.

aqui estou, exausta, descalça,
mendiga desgrenhada olhando o horizonte,
fio de Penélope
decaído a Oriente na poalha do verbo…
____
Poema publicado em Luso-Poemas
Outros trabalhos da autora: www.noitedemel.blogspot.com (prosa)


Fonte: http://noitedemel.blogs.sapo.pt/47271.html

? um quase nada, botão de rosa? cetim, veludo. - 19Ago2008

nas mucosas de minha boca
ainda
as salivas das palavras que Abril floriu.

eram rosas (rosas brancas, rosas bravas, bravo povo, meu amor …)
eram cravos
espinhados
cravados na carne flagelada p’la discórdia
era um rio de verbo
sem margens
um leito estagnado
em desassossego de parto
eram sinopses apostas a um chão tão cru
tão vil
tão frio
eram, da terra o cheiro o restolho o cio
[ciosa a liberdade
a luminosidade que s’eleva em cada anoitecer
ao largo
para além da ilha
no mastro erecto de um navio
e me bolina de ser ninfa, mulher, vela latina … amor.
… e esta linha recta em que me conduzo
e me velejo, onda, vaga, berço,
(o que t'ofereço ...)
sendo centelha breve
olhar ausente
ignífugo
que s'eleva e já s’apaga … se me não tocas, se não m'abraças... se me não tomas, tua.]

era
… da luz a cor
o branco infinito da paz que busco no teu corpo d’açucenas.

olha-me agora
nas rugas cravadas em memória, poeira de tua estrada,
no rosto opróbrio de plebe em espera …

olha-me atento e vê que sou a tua alma
o teu maior poema
flor de Abril
de um outro tempo
corpo de uma mulher que em inanição se queda
na amurada
- mulher d’Atenas -,
e, sem lágrimas, ‘inda veste a força intrínseca de ser
palavra
urgente e rubra
bago carnudo
safra
colheita e boca
d'uva
(e)terna e sequiosa
quando, nua se escorre imagem no espelho impetuoso das tuas águas
e se projecta holograma a cada esquina do teu dia
desenhada ...

… um tudo
…. um quase nada, botão de rosa… cetim, veludo.

nas mucosas de minha boca
um beijo
e o mundo ...

____

poema publicado em Escritartes

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foto da autora (Mel)



Fonte: http://noitedemel.blogs.sapo.pt/47059.html

lapidar instante - 02Ago2008

lapidar instantes como coisa minha
à nitidez imaculada do cacimbo da manhã
diamantina

ser-te eu mesma diamante gema
sendo tua…
sendo plena,
plenamente orgânica …

e dar-to, nítido instante,

a cada brilho de um olhar tocado ao teu
quando
as tuas mãos me dobrarem p’la cintura
as tuas coxas se enlaçarem minhas
e, num ápice de volúpia e descoberta
a espada do teu corpo
rasgar, moldando argila, fímbrias na lua.

***

Publicado em: Luso-poemas e Escritartes

Outros trabalhos da autora: www.noitedemel.blogspot.com

Foto da autora (Mel)

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Fonte: http://noitedemel.blogs.sapo.pt/46738.html

de ti quero as mãos e os gestos - 27Jul2008

de ti quero as mãos e os gestos
francos
a deslizar abertos em meu corpo desfolhado
quando
a noite anoitece
e o sol renasce
p’lo ar lavado deste mar
desfraldando do teu dorso velas de nudez
soltando vida adormecida no porto…
… quero a verdade
a cumplicidade harmónica no passo
a magia écloga por sobre pedras de calçada
por sob linhos de lençóis castos
no veio das águas freáticas
nos beirais vermelhos da casa ardida
por onde navegam pássaros
e barcos bailam famintos d’aportar.
de ti quero o instante
silêncio acetinado
à sensibilidade delicada,
fúria ampla dos latos espaços…
de ti quero tudo o que t’ofereço
do beijo ao bafo
do desejo ao corpo
d'afago desmedido
medido na ventania fresca dos pastos
na força cósmica das águas subterrâneas
na dança repousante de labaredas em fogueira
… de ti, quero tudo,
querendo apenas poder ser
flor pálida, levemente ruborescida
na citara de tua vida…

***

Outros textos da autora: www.noitedemel.blogspot.com (prosa)

foto: da autora (Mel)



Fonte: http://noitedemel.blogs.sapo.pt/46401.html

por onde vai esta multidão abestada - 17Jul2008

(imagem da net)

***

por onde vai esta multidão abestada
que não vê
o primado essencial da palavra?
escorro-me viva
rasgo a pele em chacinas de febres
qual soldadesca numa guerra de manobra,
voo d’águia aguilhoada p’las garras,
nas estepes da Rússia
salto a barreira do som vazio
e grito
e sou
olímpico atleta
profeta da palavra escrita
se salto o eixo elevado ao veio etéreo do sol
em cada parágrafo moribundo em que me teço
em cada poço seco em que mergulho
e bebo
e sorvo
o azedume de um povo
estagnado em promessas do mais imundo lamaçal
ou ainda,
quando, no açude dum leito em chama,
me quedo e, muda,
me comporto
incomportada em comportas de barragem
transbordante.
Lever, Crestuma … o agora e o antes,
quando nada detinha a tua força motriz...
por onde vai esta multidão abestada
que não me vê?
que não me lê?
que me confunde rubra
me funde
a pele à casca de nervura funda
à folha seca
à gramínea semente de vagem joeirada,
se, solta do chão me vejo presa em tronco erecto?
… são as árvores que falam caladas
quando morrem de pé na terra carbonizada
são as árvores que perpetuam os braços
das jornadas, camarada,
memórias depostas
nas folhas opacas deste papel ...
são as árvores, companheiro, que trazem gravadas histórias,
húmus onde jazem causas antigas
e sempre renovadas dum vocabulário inclusivo
e são ainda as suas folhas estandartes que se soltam
ganham asas
quando desenham telas de fé no neo-realismo desta estrada.
… que ninguém vê!


Fonte: http://noitedemel.blogs.sapo.pt/46118.html

impudicícia - 14Jul2008

Impudicícia m’enrosca neste poético enleio
a pele da boca aposta ao gesto controverso
o rosto cristalino na concha de tuas mãos
e, nos teus dedos, solta, minha rosa amarela
se no meu peito
s’assola tremura de ser verso
serpenteando à roda de tua cinta
em júbilo recato
em calmaria de acto
acalmo malícias d’ervas daninhas
que s’atrevem no repovoamento de pastos
desbasto
decoto
lapido
revogo tratados sistémicos
legislo novas variantes
cambiantes de cores prismáticas
sobre cristais e diamantes.
bamboleante
entre enzimas d’instante e fermentos transactos
danço tango
ou sevilhanas
e logo me projecto em elegante valsa
sendo agora Cinderela em musa debutante
detenho a corda fina
desta lira ensandecida que s’eleva, que s’alteia,
adversa e antagónica
vestida de cetim cor de damasco, sou-te menina,
flutuo acesa em mágica certeza de ser
de minha própria vida, fiel compasso.
ofereço-te minha rosa amarela.
singela … abraço-te!
***
Poema publicado em Recanto das Letras (Brasil)
Outros textos em www.noitedemel.blogspot.com (prosa)


Fonte: http://noitedemel.blogs.sapo.pt/46032.html

nos sentidos despertos - 08Jul2008



Lady Lilith
Dante Gabriel Rossetti. 1864-73
Wilmington Society of the Fine Arts, Wilmington, Delaware.

***

nos sentidos despertos
na antemanhã de um leito d’água em movimento
pressinto que existam,
ainda que retorcidas em cotovelos inopinados,
instancias calmas
serenidades reconvindas
quietudes d’alma
em que, sem medo, um bote de chumbo se faz ao mar...
embarco - talvez esta seja a Barca do Inferno -,
pouco importa se, nos teus sentidos despertos mergulho agora,
se, em sargaços m’envolvo,
e galgo esporas no coração do vento, varrendo a praia…
conquanto é quando ao largo a bruma se desvanece
em partilhas de inocência
que encontro teu nome, recortado por um pantógrafo metalúrgico
a ferro e fogo,
assaz contraforte vermelho (cravo ou papoila) em bebedeiras de noite e luz …
corro, impetuosa ao teu encontro,
quebro o novelo onde m'amarro à amurada
numa melodia que não sei
inventada
(re)invento-me, explodindo magma
p’la cratera da palavra
felina, celebro o fermento e o trigo das sementeiras
em litanias e silêncios de algodão doce
dispo-me de velas que m’ensurdecem
desfaço a meia-desfeita
a trança redemoinhada no sal salgado do teu corpo
bebo o veneno que me ofereces
e sou
na medida exacta do teu dorso,
o nada, o tudo, o infinito coadjuvado duma quimera
e tu em mim, poesia, ilusão pura!


Fonte: http://noitedemel.blogs.sapo.pt/45782.html

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Um cego entra na cozinha pega no ralador de cenouras e diz:
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