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Poemas de ...

Testes










Luso-Poetas

- 2008-09-26 03:49
MEU NADA

Lembro da terra que me naturalizou
Relendo sua história num papel de pão.

Lá nada se via nada se ouvia.
De suas estradas trançadas
Nenhum barulho, nem silêncio
Chegavam ou por uma boca ou por uma mão.
E num saudosismo de poeta esquecido
Sinto doer meu coração já tão distante
Quatro, cinco casas, dez, vinte gentes
Povoam ainda hoje minha cabeça
Como se a morte naquele lugar agonizado
Nunca passou e ninguém se foi.
Podia já haver morrido.
Lembro que às seis horas da tarde
As cigarras cerziam segredadas
Seus cantos de dormir.
E as mesas se floriam
De toalhas estampadas, de muito uso.
Que viravam lençóis
Depois mudavam para vestidos
E se puíam e ao monturo serviam.
Lembro desse lugar
Pelas notícias que traz minha alma
Todos os dias, quando chega para o pernoite
E fala dormindo, e me diz de Arlindo, findo.
E se refere aos de minha idade
Que nunca saíram para ver a cidade
E ainda se submetem aos golpes certeiros
Da enxada amolada na pedra
Ao machado que esquece da árvore
E lhes procuram as pernas.
Pobre lugar. Que triste situação.
Naeno


Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2008/10/meu-nada-lembro-da-terra-que-me.html

- 2008-09-26 03:49
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CORTES NO PÃO DE AÇUCAR


No cume dessas colinas

Sei quantos bilhões de anos

Contemplam-nos.

Neste despenhadeiro descobri

A minha terra/ crus e delícia

Saudade minha amada.

Neste elevado triscando o céu

Nomeei-me poeta.

Aqui me detive em estórias

Mais perto da verdade que fazia meu juízo

Mestres, molengos, máxime

Entre cantos gregorianos e foles

Aqui aprendi

Dou-me a ser

Espiritualmente semita

Alimentei-me de Índias.

Daqui vi crescer

A novíssima Israel:

Karl Marx, Freud, Einstein.

Daqui pude constatar

Picasso, Mallarmé, Strawinski

Lutei com o Verbo Encarnado.

Matérias fui para formas e criaturas.

Aqui toquei imediato

Ou por tangência e contaminação

Múltiplas coisas enormes

Visíveis invisíveis.

À beira dessas encostas

Muro inexistente

Dasamei, amei

Deslouvei, louvei

Cedo me desarmei.



Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2008/08/href-normal-0-21-false-false-false.html

- 2008-09-26 03:49

DETALHE

Era o brilho do teu olhar entre as pessoas
a buscar-me sorridente em cada canto,
e a festa esverdeada do encontro.
Detalhe era a piscada alegre
no outro canto da sala cheia
convidando... insinuando aproximar...
Detalhe era teu rosto preocupado
por uma dor ou na tristeza que eu tivesse
era teu sorriso orgulhoso
pela nota dez que fiz no teste.
Detalhe a tua mão
pousada em minha perna na estrada
e tua voz "boa viagem pra nós",
acompanhada do beijo que trazia.
Detalhe, o teu prazer vazado e descarado
somente por estar na minha companhia.
Detalhe o teu abraço no meu erro
e a frase de cumplicidade:
?Tudo bem! Na próxima a gente acerta!?.
Detalhes... para mim, não são detalhes
são pequenos feixes de luz
compondo e enfeitando a nossa história
pirilampos brilhando na paisagem
mostrando a vida que deixaste...
detalhe de eternidade na passagem.



Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2008/05/noite-quando-noite-se-deita-lentamente.html

- 2008-09-26 03:49
ELEGIA

Vejo ela chegar, soturna
Aclamada pelas luzes que se cruzam
Ouvem-se tambores em contratempo
São nuvens que se atropelam para contemplá-la
Aguça-se o movimento de vai e vem dos anjos lá pelo céu.

Seu belo vestido branco, organdi sobre cetim
Toma a visão inteira do horizonte
Por todas as gerações formadas e desfeitas.
As mães passam às filhas antes das núpcias
A modelo do vestido que os animais tecem.

Ela anda para mim
Para todos que juram vê-la
Expõe o diadema que a identifica do normal das mulheres.
Distribui sonhos entre os desenganados
E discórdia entre os afortunados.

Eu contemplei o seu ser transparente e firme
Quando um relâmpago ambíguo focava seu corpo
E sua silhueta desnuda afastava a lua.

Desde então eu percorro balançando o mundo
Sem me contar, no meio de ninguém.



Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2008/03/elegia-vejo-ela-chegar-soturna-aclamada.html

- 2008-09-26 03:49
VIDA

Depois que a vida chorou pelos meus olhos
E soprou a minha boca pela boca dela
Temos sido assim amantes barulhentos
Quando em nossas encruzas
Mostramo-nos os dentes.
Depois de fincada no chão uma semente,
Pelas mãos dela, e eu era um silente
Pequeno grão suado por sua mão fechada
E ali já germinava, e ali eu florava.
Aflora agora uma vida em dormência
Sob os caprichos dos seus pés, fui
Calcado, e transplantado tantas vezes
Por não ser o enfeite pra sua janela aberta.
E eu não pergunto de mim a ela
Não incomodo a dona dos arados,
E o que quer de mim, nessa lavoura úmida?
Que eu chore, que me decline.
Serão meus frutos de sabor ruim,
Que ela não arreda o seu olhar,
E quando eu digo gosto desse canto,
Ela me espanta apontando um outro igual
Faz-se arrendatária, também de mim.

Eu me iludo que com os outros.
É mesmo assim:
Por ela transplantados, fustigados,
Enxertados, lavrados.
E que não têm sentido
Os seus caprichos arcaicos.
Tem tudo acertado, e sabe o que faz.



Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2008/03/vida-depois-que-vida-chorou-pelos-meus.html

- 2008-09-26 03:49
ACEITA

Uma forma de um espanto
Mistura-se entre tantas, menos uma.
Ocupa minha cabeça nas noites e nos dias.
A forma de uma mulher
Mais encorpado que um modelo.
Desejo que me acompanha
De uma lua até outra.
De um outro caminho, de um outro temor
Que me transplanta do tempo e salta o passado
Que me afasta de mim mesmo.
Que me divide em dois, como um riacho
Que causa em mim medo e febre
Que se adianta frente à sombra dos órfãos e miseráveis.
Uma forma que se expõe por todos os poros do meu corpo
E só não é o mal, posto que não dói
É um alívio ante a verdade, muito mais certa, de Deus.
Amor
Te darei a alegria extrema e fácil
Do que não se tem de esperar dos outros.
Te darei a cantiga dos saudosos
O suspiro do menino que olha em vão
O brinquedo guardado de minha outra vida
Te darei a nostalgia de quem foi feliz
Em tempos muitos remotos.
Amor
Te darei a tristeza do que nada encontrou em sua missão.
Te darei o desconforto do que está se perdendo.
Pelos males que não cometeu
Pelas loucuras de outros em outros tempos.


Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2008/03/aceita-uma-forma-de-um-espanto-mistura.html

- 2008-09-26 03:49
MINÚNCIAS

Não é preciso somente abrir a janela
E deparar-se com a claridade
De todas as manhãs.
Ouvir o mais nítido barulho dos riachos
Que passam rentes as encostas,
Levando peixes e pedras sobre seu piso liso.
Nem consternar-se com o vozeio
Da vida que se faz lá fora:
Os que passam, os que ficam,
Esperando e levando, sonhos
E a vida para o sacrifício.

Muito mais necessário fica
Olhar todas essas minúcias,
Que são, perturbadoras visões incompletas,
Sem a visão fechada do crítico céptico,
Do filósofo que fala o imponderável.
Do carrasco que a todos odeia,
E deseja a cabeça de cada um numa bandeja.
É necessário saber nesses momentos,
Deixa-los na sua pureza, saltar a janela,
Invadir a porta e abençoar-se deles,
Banhando-se sem pudor de estar nu e vulnerável,
Ao que não mete medo,
ao que desnecessário se faz,
Conjeturar, pensar, filosofar.
Coitados dos poetas, filósofos, sonhadores,
Errantes nos caminhos fáceis que levam à luz,
À vida em sua essência,
Como é vivida, obrigatoriamente, por quem nasceu.

Coitado de quem nasce e lança a olhar o mundo
Com a desconfiança de que é sua missão
Completa-lo, feito por Deus, erradamente.



Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2008/03/minncias-no-preciso-somente-abrir.html

- 2008-09-26 03:49
minha filha Isadora
COMO SE DEUS FOSSE INÚTIL

Não abra seu coração
Como quem abre porteira
Ou escancara cancela
Ou desmantela um oitão.

Não abra seu coração
Como se Deus fosse inútil
Ou se sonhar fosse fútil
Ou se viver fosse em vão.

Não faça do seu sorriso
uma alegria a esmo
Seja você sempre eu mesmo
Dentro do seu coração.

Deixe o seu riso lindo
Iluminando o luar
Banhando as ondas do mar
Com sua luz sedução.

Mas não permita ao abraço
Afogar um barco a vela
Destroçar uma aquarela
Desativar o que vejo.


Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2008/02/como-se-deus-fosse-intil-no-abra-seu.html

- 2008-09-26 03:49
minha filha Luiza
CANTAI

A alma eleva o incensário da beleza
Por todo o lastro do mundo.
Contornos adormecidos
Matérias na sua real verdade.

E quem dirá, certo, a estrela da manhã
Sem os ditames de todos, acrescentados
Vedando a visão das possibilidades celestiais?
Claro, eterno claro, sobre a matéria vida
Escuro, noite, sobre os espíritos embriagados
Aparecimento de planos, muitos
Na espera do previsível.
Purezas que se tornam flores
Essência que vira indefinição
Canto que se torna dança.
Deus que deixa sua infinitude num tempo exíguo
- Trinta e três anos e alguns meses
O tempo que qualquer animal irracional
Se estende além, muito mais -.

Tudo me chama para passar dos meus limites
O vasto campo de minhas lembranças
Ó tempo que não se finda.



Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2008/02/cantai-alma-eleva-o-incensrio-da-beleza.html

- 2008-09-26 03:49
DO MESMO JEITO

Eu continuo o implacável
Besta solto numa capoeira.
Relinchei alto na hora do almoço
Declinei-me para pegar uma concha aberta
Com uma pérola, que me incomodava a visão.
Continuo contínuo, nos mesmos passos
Com a mesma fome e a mesma sede
Pronto numa rede só com os olhos de fora.
Continuo aqui, parado, distante
Garantida a minha vontade de ir
E de não me expor aos olhos pelas janelas.
Continuo achando papéis e lápis, facilmente pela casa
E, escrevo cartas para minha mãe.
E quando se acabam os papéis
Me passo para as paredes.

Continuo aqui, sóbrio, sem amor, sem amar
Sem esperar.
Não me incomodam os aviões que pousam
Os ônibus que chegam cheirando a distância.
Os barcos passam e eu, irreverente
Não me presto a um gesto de sequer olhar.
Eu sei que em tudo isso não vem
Não tem quem eu queria ver chegar.

Continuo o mesmo idiota, que viu o teu retrato
E se danou a chorar de saudade.
Como quem quer ser gente
Para, igualmente a ti, se explicar
E ouvir a sentença que quero:
- Eu te perdôo....
Mas vais dormir no alojamento.



Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2008/02/do-mesmo-jeito-eu-continuo-o-implacvel.html

- 2008-09-26 03:49
O SILÊNCIO

O momento esperado, o silêncio das ondas.
O sobressalto que o mar não tem mais para agora
Enseja com a minha coragem e minha própria tormenta
De navega-lo, remando o meu amor
Singrando, faltando-me a visão do porto.
Ainda não me digas
Se pernoito ou sigo
Deixa-me ver teus olhos na manhã
A minha pressa são a claridade nova
A tua boca falando por mim
E o mar não me diz mais assim
Do modo impenetrável
Intransponível como via a minha alma
Que já se alenta e se acalma, e se detém
Fintando a tua face docemente
Do que já virou fagulhas
O mar é só um refletidor
Uma lembrança mais perto
De todas as manhãs que vão chegando
De todos os sins que de tua boca
Correm no vento, vão se espalhando
Pingando este céu de águas

Molhando os meus olhos de esperança.


Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2008/02/o-silncio-o-momento-esperado-o-silncio.html

- 2008-09-26 03:49
DESAFORTUNADO

Eu conheci a casa de um desafortunado
Nela vivi quase toda minha vida,
Apanhei gravetos para os invernados,
Puxei gavetas e guardei retratos,
Um arquivo morto de mim retirado.
Eu andei por dentro da casa cumeada
Tropecei pelos atalhos, cadafalsos
Troquei uma vida, que me dera, inventada
Por uma que eu vi de perto, andando enfalço
Fui o primeiro desordeiro do motim.
Não tive nunca uma gota de raiva.
E foi assim, andando, dentro e fora dos pântanos
Que hoje dou graças à sorte fora de mim.
À imaculada virgem, mãe da Conceição
O meu amparo, de quem mais eu vi nos olhos,
A minha amada, o tempo todo cortando a rota
Dos desamados, sempre me trouxe por sua mão.
Fiz pisoteio até o cultivo das pedras guardadas
E vi a festa da colheita das formigas,
E disso eu disse, com o coração e alma aflitas:
- Não me descanso, mesmo quando estiver sentado.
E da lavoura que os cupinzeiros demarcavam,
Das espigas de milho bem debulhadas,
Pus o sabugo como mastro da bravata,
E lutei só, com Conceição, nela amparado.
Olha-me Deus, no que escrevi,
Eu relatei a minha vida e Vos traí,
Era um segredo até o tempo por vir,
Até cansar, e cansado, aqui cair.


Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2008/01/desafortunado-eu-conheci-casa-de-um.html

- 2008-09-26 03:49
CONTADOR DE ESTRELAS

Às vezes eu acordo pra ver estrelas
E choro vertiginosamente.
E minhas lágrimas brilham
E meus olhos se enchem de astros flutuantes.

Sinto dores no silêncio
E silencio tudo que em mim é barulhento
Traiçoeiramente acordado de um sono escuro
Mergulho copiosamente por entre belezas, acordado.
Transtornadamente imergido na noite.
Todas as dores estão sobre mim
Tudo em mim padece, sofre e se esquece
Que não acordei por querer,
Que ninguém busca a brasa acesa
E pisa sobre ela a encandear-se
Porque a carne se mostra
Em uma triste revolta e se expõe,
Paradoxalmente, ao sofrimento.
O meu peito na dura opressão
Não se contenta com a brisa fria da noite.
Marcas de ferro e de fogo,
Prodígio gozo de uma alma penitente.
E o meu espírito partido
Vê-se entristecido,
E não se abstrai com o que tem de sofrimento.
Como uma presença que não me distingue.


Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2008/01/parceriros-o-sol-foi-minguando-saindo.html

- 2008-09-26 03:49
CHORO DA ESTRELA

A primeira estrela que eu vi esta manhã
Estava chorando.
E por sua dor impregnada em mim
Declinei o meu rosto e chorei também
E eu só vim perceber
Porque pensei, chover
E dissimulei: chover do nada
Nenhuma nuvem
Foi quando a vi soluçando e triste.
Os pingos de suas lágrimas
Faziam esta chuva
Uma chuva de gotas contadas
Mas que o chão todo molhava.
Os olhos de uma estrela
Não são como os nossos
Que sequer dão para lavar o rosto
Elas lavam a vida inteira
Elas comovem o mundo inteiro
E assim todos, como eu, choram.
Choram da estrela chorando
Choro da do que suas lágrimas
Vêem prenunciando.
Tomara seja a solidão do tempo
Porque todas as outras estão imersas
No escuro, um domínio protetor.
-Não chore estrela
Não chore
A companhia dos homens não te basta.
A nossa comoção pelo teu infortúnio
Não te alargam a visão de uma manhã venturosa
Acompanhada de todas
De todas as noites, o lindo estrelar.



Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2007/12/choro-da-estrela-primeira-estrela-que.html

- 2008-09-26 03:49
DEUSA

Tudo o que te envolve e tu sorves
Adiantam a fascinação e o mistério
Teu véu que te recobre em ti e o meu delírio
É a proteção impenetrável da minha cela.
Tuas mãos macias ao toque
Constroem a nostalgia da tua pele
Que não serviram ao meu anel de brilho
Tua pintura no rosto
É uma provocação à natureza
Teus indumentos e teus cheiros
São precisos em ti e a calma do mundo
Como a água ao sedento.
Eu me ponho sob tuas peles e tuas plumas
Devoro os teus espartilhos de seda
Para beijar tuas montanhas quentes
Que regurgitam em meu poema
Escancaro a tua túnica, cor misteriosa
Para me confortar em teu ventre ardoroso
Que aumentou o mundo ao lhe dar um homem a mais.
Tuas vestes cativas de um plano iluminado
Chegam ao lastro celeste pelas nuvens e as estrelas
Por tuas visões teus desejos tuas reações.
A natureza inteira
É dividida para ornamentar o teu corpo
Florestas inteiras são dizimadas
Declinam até o fundo das minas e dos fundos
Movimentam máquinas, tecelões
Largam as aeronaves ao leu
Arrebatam-se pelo poderio sobre a terra
Matam, morem, se infringem, pelo teu corpo
O mundo se esvai de ti, e vem desembocar em ti
E te mira estupefato e apaixonado
Arco-íris da terra
Fonte dos nossos ais, de nossas alegrias.
Tudo o que te compõe, desde teus sapatos
Está ligado ao pecado e ao delírio
À Deus, ao sobrenatural.


Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2007/11/deusa-tudo-o-que-te-envolve-e-tu-sorves.html

- 2008-09-26 03:49
SOBREVÔO

A aeronave leva a bordo a palavra silêncio.
E sobrevoa o mundo, organismo abstrato
A aeronave desobstrui os caminhos, se inclina
Como os movimentos dos anjos de azas.
Mundo ultrapassado, vê-se outra esfera:
Ressurge o mundo, num contorno, à passo.
No mundo tinha minha ração de silêncio, ainda maior
E pude permutar meu ângulo de ver e escutar
E decifrar os códigos do meu enigma
Deus proveu-me de estatura, desde o começo
No ermo acima, na aridez da minha fome e sede.
Concedeu-me tocar o íntimo da minha história
Eu, que sou o que não se afigura, o não escolhido
O que não foi implantado, o que sempre se completa
Sustentado pelo sol, essência que reanima carcaças
Uma criatura que não é um ser
De amor afundado pela carência ou tudo
O que jamais abriu a boca, nem conjectura uma alegria
Mora no tormento, no volume
Sem o mundo e com o mundo
Que la cidad? porque la cidad?
Severo e castigado mundo
O espaço que criou o espaço
A pedra macho do mundo
Que esconde os segredos.


Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2007/11/sobrevo-aeronave-leva-bordo-palavra.html

- 2008-09-26 03:49
QUANDO PENSO

Quando não se pensa em nada
Há um mundo repleto de coisas ao nosso redor.
Mas quais os elementos que compõem o mundo?
Quase sempre eu não sei dizer o que penso do mundo.
E se eu estivesse acometido de um devaneio
Uma doença dos sentidos, pensaria assim.

O que penso das outras tantas coisas que estão aqui.
O que eu saberia dizer disto, dos efeitos e de suas razões.
Quando falo em Deus, saberei a quem me refiro,

E a alma, esta volátil, dela o que dizer, objetivar?
Penso na criação do mundo, em quem o fez,
E pensaria coerente, caso visse tudo à mostra?

Não saberia dizer a ninguém
Embora isso me interesse

Mas não fizesse sentido aos outros

Que também devem ter suas deduções alucinadas.

Pensar em tudo isso é sonhar acordado, de olhos fechados,
E deixar de pensar é impossibilitar aos olhos qualquer dedução
À minha cabeça, que inquieta insistentes vezes acertando às vezes errando.
O mistério das coisas é o mesmo que reside em nós
E as coisas, também pouco sabem a nosso respeito.

O
que eremos para as coisas com as quais nos confrontamos
Podem elas ter um juízo acertado ou malogrado de nós.

Quem está na noite e fecha os olhos em nada muda
E quem vai ao sol e fecha os olhos, perde-se dele falar.

É como se estar na noite, de olhos vendados; não se pensa nada.
Porque nada se vê e nada se tem para avistar.

Por que uma rosa orvalhada, vale mais que o que pensamos dela
Se quando nela nos abstraímos, a vemos inteira, como é?
Assim por mais que sejam insistentes os poetas
Ou os obcecados pelos mistérios que se encerram nas coisas
Às vezes desatinam em suas conclusões e transmitem
A outros que sequer contemplaram tais matérias

Ficam com essa crença, a deturpada noção
Do mundo, e de tudo o que ele abriga harmoniosamente.


Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2007/11/quando-penso-quando-no-se-pensa-em-nada.html

- 2008-09-26 03:49
POETA

A vida do poeta tem um batimento disforme
E um momento pendular de subir e descer, ofegante.
O poeta é o caule-pai do enxerto do sofrimento
Das dores inexplicáveis, mas que lhe fartam os olhos de candura.
O poeta tem a alma de uma parte do universo prescrutado
O invisível que ninguém imagina e não se compreende.
Ele é o eterno caminhante por veredas irreconhecíveis
Por onde passa, socando a terra com os olhos para o céu
Coberto pelo espesso fim aonde não se chega

Ensolarando com o seu próprio raio a vista da vida.
O poeta tem o coração minúsculo dos pássaros,
E a inabilidade das pequenas crianças.
O poeta sofre, chora, e passa a mão nos olhos
Pranteia leve, com lágrimas de néctar, de águas coadas

Olhando o ermo, imenso, espaço do seu espírito.
O poeta ri-se, e ri naturalmente
Sorri para a vida, para a boniteza, para o carinho

Sorri com suas lembranças da mocidade, melhor que agora
O poeta tem uma alma de bondade.
Ele ama as mulheres todas as mulheres puras e tocadas
Sua alma lhes entende na luz de suas impurezas

É repleto do amor aos reveses da vida

E é de amabilidade para os gestos da morte.

O poete não se esquiva ao presumir a morte.
Seu sentimento adentra a sua percepção calma
E o seu poder criador de poeta tê-la cheia de muitos enigmas

E a sua poesia é o sentido de sua permanência

Ele o constrói imenso, ornamentado e pobre

E o afaga em vendo-o sôfrego e o acalma na agonia.

A vida do poeta tem um batimento indecifrável
Ela o leva andarilho pelas veredas

Calcando o chão e mirando o céu
Enclausurado, eterno, dos limites invisíveis.



Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2007/11/poeta-vida-do-poeta-tem-um-batimento.html

- 2008-09-26 03:49
ANUNCIADA

O Anjo sobre o assoalho do quarto
Onde a jovem intocada
Cuida das crianças órfãs
E dos doentes que não andam.
Mudou-se a realidade no tempo
De tudo fez-se uma claridade estupenda
Naquele quarto humilde e de nada
As agulhas e as linhas multicores
Costuram a claridade da luz
Tudo se confunde,
Ninguém sabe mais do anjo
Se é ele mesmo ou Maria.

A tarde se inclina do dia
Estanca o respirar ofegante
Ai o espírito segredou:
- O nosso Deus mandou-me te saudar
A mais cândida entre as mulheres
A mais bela entre as criaturas,
E mais santa, do que uma mulher.
Deus, entre todas, escolheu a ti
Para gerar e fazer nascer o Salvador.
Serás cortejada um dia
À frente de todos os anjos
À mesa posta para o teu dia.
Também serás perfurada
Da espada de muitas dores.
A noite já está se vendo,
Adeus imaculada, adeus.

A reluzente não se perturba
Inclina o corpo de serenidade
- Fala-me mais anjo lindo
Se fores já leva um meu recado.
- Eu sou à disposição de Deus
Tudo o que Ele quiser de mim
Ordene-me e eu cumprirei.
Minha vida nas mãos do Altíssimo
Eis que esta bela notícia
Os meus olhos encherão
Ora de muita alegria
Ora de tristeza e medo.
Mas custa menos que o meu labor
As agulhas e estas mãos tão pobres.

O anjo ergue-se pelos braços
Vai, a moça contristou-se
Sob a sombra dele emergindo do ar
Deixa marcada uma cruz no chão.


Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2007/10/anunciada-o-anjo-sobre-o-assoalho-do.html

- 2008-09-26 03:49
MEU SANTINHO

Quem acolhe a fome e a sede de São Francisco,
Que areolado de garranchos
Imitados os espinhos de Deus,
Passa em tua porta e não se encosta
Pois se honra com a tua mão voluntária
Direita, pelo lado de fora,
Dizendo: Entrai o Santo que mais me atrai.
Quem pode com o santinho franzino
Vestido em marrom um dobro sino,
Uma confusão trabalhosa,
Entre o supremo e a estátua
Que frente, ao que se pede se curva.

Quem veste e quem empresta para comprar,
O Santo que não deve nada a ninguém
Que numa atitude, por Deus, deu-se ao povo, deu tudo.
O seu legado, a esperança pra muitos ricos.
E Ele um franzino que pra se equilibrar
Nos sobe e desce dos caminhos,
Mantinham-lhes altivos pássaros,
Amavam-lhes os animaizinhos.
Lá vai São Francisco, parece que comeu.
Parece que bebeu,
Parece que trocou de túnica,
Parece mais sustentado, ou será Deus?


Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2007/10/meu-santinho-quem-acolhe-fome-e-sede-de.html

- 2008-09-26 03:49
MEU PAI SAIU

Algo de enigmático e indefinido
Durante cinquenta anos viveu entre mim.
Uma provisão de amor
Uma vida sem mudanças.
Que amava tantos: os pássaros e a natureza.
E sempre estivera à espera da doçura
Mas veio a violência em rajadas,
Vieram o pânico e a febre.
Não lhe pude ver tristonho nem chorando
Recebi o recado, na minha recaída.
Depois que as roseiras começavam a fenecer
Sobre o seu jardim, arado por mim.
Hoje ele existe para mim
Em uma vida mais forte, em plenitude,
A mesma vida que ninguém pode arrebatar
Nem o tempo, nem a espessura, nem os anjos maus
Que torturam a minha infância árida.
Hoje ele vive onde escolheu ficar
Com a doçura que sempre desejou,
Alcançando, enfim a sua visibilidade
E a paz, de um ser ofuscado pela quietude.


Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2007/10/meu-pai-saiu-algo-de-enigmtico-e.html

- 2008-09-26 03:49
SEREI

Brotarei do chão
De outras terras com um novo olhar.
Largarei minhas partes comprometidas,
Legado do mau
Não me pisarão os pés,
Mais alucinações verdadeiras
Nem mais serei a luta
Entre a apuração do meu espírito
Para a subida
Tenho de lançar fora a minha pele indefinida
Fada de mim mesmo,
Alma despejada
Abraçada às construções de fora,
Da indecisão de ir
Me redescobrirei
Em planos de fatias do céu,
E terei uns olhos
De criança nascendo de novo
No coração dos que amam,
Na escadaria do espaço,
Na derradeira luz dos velhos
Que morrem, no sonho de Deus
E em todos os lugares
Onde houver alguém que sofra e ame.
Aqui não me permito fazer tudo o que penso.
Me largarei de mim mesmo
Quando a luz que ofusca
For notada pelos cardumes humanos
Que vacilam,
E a minha alma perfurar os espaços à frente.


Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2007/10/serei-brotarei-do-cho-de-outras-terras.html

- 2008-09-26 03:49
NATURAL

Não sou a perfeição dos homens.
Oras sou oportuno, oras atrasado,
Mas vivo na estrada de boca aberta,
Engolindo vento, mordendo mosquitos,
Ás vezes sou um todo esquisito,
Quando paro aprendendo.
Tento por vezes decifrar
O que querem dizer os pássaros,
Porque quando um fala o outro responde,
E o sentido, a razão, as palavras,
Correm acima de mim, em cima.
Sob o que vejo as imagens se entortam,
Olho dos fundos, da outra porta,
Ainda me conforta notar a porta,
Que porta é coisa difícil de encontrar.
Por ser detrás, debaixo, vejo,
O pouso lento do anjo alvejado,
E vejo a queda e ouço o grito
Que o pai blasfema lá do infinito.
Não sou a solução dos homens,
Sou como barro, ainda nestas esperas,
Secando ao sol, só eu e o sol,
Estado natural da vida, só.
Não sei nada mais que nenhum homem,
Sei do meu nome, mais dos feitos,
Dos meus defeitos, menos, do jeito
Como se como, como se bebe
O que não se acha, o que não se serve.
Deus cuidará, deus guiará, deus quimera,
Dos meus dias que já me esperam.


Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2007/10/natural-no-sou-perfeio-dos-homens.html

- 2008-09-26 03:49
DIALÉTICA

Todas as formas ainda se encontram em esboço.
Tudo passa em eterna transformação
E o universo anda rápido,
Na última engrenagem conectado.
Arranquemos as árvores que se antepõem às outras
O som da lira muito antiga
Seu toque de música
É dado aos ouvidos e ao coração de todos.

Cada novo poeta que começa
Por escrever sua sentença, observe a fôrma.
Amarrai-lhe uma corda.
Uma vida velha, já com mais e mil anos
Pode ter seu complemento e apogeu
Só nesta vida que se inicia agora.
Nada poderá silenciar e se interromper
Nem quebrar a unidade do mundo.

Uma bactéria foi criada no princípio
Para que se infiltre em vários planos.
Nossos suspiros, nossos desejos, nossas dores
São fincados no campo que não tem fim
Pelo espírito calmo e sabedor de suas intenções.
A muitos, só a alternativa de lhe impor o lixo
É a saída, é a entrada, e uma saída sábia
Que lhes coube na tendenciosa partilha da vida
Senão uma angústia atroz sem pureza, e a doença da alma
Não escutaram a música do nascer do dia,
Do farfalhar das árvores ao vento que não lhes toca,
Nem assistiram à contínua promessa
Nem ao seqüencial parto das novas espécies.
Não lhe oportunizaram ver a noite desprovido de pavor
Guiam-se pelo castigo e a sombra de seus feitos.
Comendo pó e bebendo seu próprio suor,
No entanto a transfiguração vem antes da morte.

Cada um deve assumí-la em carne e espírito
Para que a alegria se complete e se torne definitiva.
É preciso conhecer seu próprio abismo
Aquele a que seus pés estão ancorados,
Amarrado por um cordão umbilical, rompendo.
Tudo no mundo anda, e anda para esperar;
Nossa existência é uma louca expectativa
Onde se encostam o princípio e o fim.
A terra terá que ser partida entre todos
Tudo anda para a o modelo perfeito:
A aurora é um sonho coletivo.


Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2007/10/dialtica-todas-as-formas-ainda-se.html

- 2008-09-26 03:49
PRONTO

Não te redime a alma encabulada
Esse fogo nos teus olhos de tição
Como alguém que faz
Uma únca refeição
E corre ao pote
E bebe o meu sangue
Querendo-me cativo dos teus desejos.
Em mim nem fumega mais
A chama que se avistava
Do meu coração queimando.
Fomos o chão, fomos muito adiante
Do que os limites da estrada batiam.
Agora não beijo-te mais
Com a boca mentirosa, não...
Verto mais o alimento de que vivias
Agora engordo e tu definhas.
Ou eu me elevo e tu declinas.
Ou eu afino e tu de formas
Ou eu me esvaio e tu de inclinas.
Sei que vês, não porque tenhas olhos.
É que a figura de mim agora se nota
Como um mártir do amor
Um incenso que queimou
E cheirou até quando se acabou.


Fonte: http://poemusicas.blogspot.com/2007/10/pronto-no-te-redime-alma-encabulada.html