Luso-Poetas

nos sentidos despertos - 08Jul2008



Lady Lilith
Dante Gabriel Rossetti. 1864-73
Wilmington Society of the Fine Arts, Wilmington, Delaware.

***

nos sentidos despertos
na antemanhã de um leito d’água em movimento
pressinto que existam,
ainda que retorcidas em cotovelos inopinados,
instancias calmas
serenidades reconvindas
quietudes d’alma
em que, sem medo, um bote de chumbo se faz ao mar...
embarco - talvez esta seja a Barca do Inferno -,
pouco importa se, nos teus sentidos despertos mergulho agora,
se, em sargaços m’envolvo,
e galgo esporas no coração do vento, varrendo a praia…
conquanto é quando ao largo a bruma se desvanece
em partilhas de inocência
que encontro teu nome, recortado por um pantógrafo metalúrgico
a ferro e fogo,
assaz contraforte vermelho (cravo ou papoila) em bebedeiras de noite e luz …
corro, impetuosa ao teu encontro,
quebro o novelo onde m'amarro à amurada
numa melodia que não sei
inventada
(re)invento-me, explodindo magma
p’la cratera da palavra
felina, celebro o fermento e o trigo das sementeiras
em litanias e silêncios de algodão doce
dispo-me de velas que m’ensurdecem
desfaço a meia-desfeita
a trança redemoinhada no sal salgado do teu corpo
bebo o veneno que me ofereces
e sou
na medida exacta do teu dorso,
o nada, o tudo, o infinito coadjuvado duma quimera
e tu em mim, poesia, ilusão pura!


Fonte: http://noitedemel.blogs.sapo.pt/45782.html

que nenhuma ave se demore - 01Jul2008

(imagem da net)

***

que nenhuma ave se demore

na anormalidade suspensa da rota
que nenhuma treva se detenha
nas rugas sábias de teu provecto rosto
que nenhum beijo se quede,
meu amigo,
se o teu e meu desejo
é beijar a lua alta em noites plenas de luar
esqueçamos tudo ao redor
esqueçamos o que julgámos saber
se não sabemos
o que julgámos ser
se não somos
o que imaginámos que, porventura (ou desventura)
nos iria acontecer
e, se aconteceu, não nos demos conta sequer …
façamos tábua rasa dos ditames
das supostas verdades
das vanglórias
dos códices e das regras
de falsas moralidades…
o tempo não conta, o tempo é um constructo, um abstracto,
um “quase nada”
e mais não é, quiçá, que um ponto de encontro
entre a procura e a oferta,
o tal ponto de Cournout de que te falava há pouco…
esqueçamos pois o que não importa,
esqueçamos horizontes cerrados
e, de punhos cerzidos à cor biblica dos pecados
desta avenida
escutemos o tic-tac das sílabas,
quais desabrochadas donzelas,
no Big-Bang da nossa secreta humanidade...
e, se ‘inda aqui estás, e já sinto de ti saudade,
se esta é a maior verdade
então
acorrentemos os lábios à goma-arábica das palavras
num casulo tenro d’afectos
façamos nós os caminhos
num abraço intemporal de braços abertos e, no fulgor primevo
de sermos corpo, alma, sangue, saliva e fogo,
reaprendidos, enlacemo-nos de novo
num cordão maior de convicção
de sermos tão somente
pó e povo.
que nenhuma ave se demore… meu amigo, meu irmão.


Fonte: http://noitedemel.blogs.sapo.pt/45520.html

erguem-se adjacentes - 25Jun2008

Graffitis 1

(foto daqui )
***
erguem-se adjacentes
confinantes aos muros
aos tapumes
aos tabiques do bairro da lata
grades
janelas indiscretas
da consciência
da complacência
aos espaços manifestos
da intenção
erguem-se heréticos
d'olhares infantes
descrentes
das vontades declaradas
das palavras
das promessas
das sentenças faladas juradas
(fogo de palha, amores de verão…)
abrem-se aos verbos, acervos da nossa história
folhas recentes e já amareladas
sufragadas ao colectivo esquecimento
abrem-se em crenças
soltos
da Caixa de Pandora,
e neles, e nela, as lutas tribais,
as recentes e as antigas,
gladiadores d’arenas, madrigais de vida
ávidos
descosem-se os braços
os zimbórios
das sacas e das lonas opressoras
(estão-se nas lonas, porra!…)
declaram-se livres
a língua colada ao céu-da-boca
sem estrelas outras que não o eco
do trovão a ribombar
na verve
e o fascínio a lampejar
no ardor
do azeite efervescente
em guelras
de peixe
(o peixe sabe nadar, yôooooo)
erguem-se ímpios
espicaçam-te a alma
furam-te os tímpanos (doce, docemente)
são rap, graffiti ,
arte cigana.
arte popular, art’ urbana,
são, do poema a pena, o verso e a rima
dum povo a razão, jamais a sina…
são os filhos desta cidade a ousar ser sendo já,
e sempre, gente! Gente!!!



Fonte: http://noitedemel.blogs.sapo.pt/45094.html

gorjeta - 23Jun2008

quando partiste

não percebi, não entendi a génese da desdita.
o mundo caia em derrocada num vazio de nada.
tudo eram trevas, tudo eram solidões maiores….
tudo se alternava entre díluvios e
magmas do Vesúvio...
levei meses, anos, vidas, a conceber o acto
de te parir sem dor
de te expulsar de mim. definitiva.
sabes, eu não sabia
que teria de abrir fleumáticas asas
ao voar
como se fossem pernas numa ginecológica maca
sem pudor
sem reservas…
que me teria de revelar em formas estranhas
- sinopses, teses e antítese de poemas…
sendo eu, e ao mesmo tempo, a um só tempo,
todas as outras mulheres…
“virgem de vagas, velas e marés”
o sangue escorria-me da alma aos pés
empapava uma a uma as folhas já pardas das memórias
e, na dor, ceguei até …
quando partiste
olhei a toalha de linho imaculada sobre a mesa,
as rendas que tecera em filamentos de espera,
a taça pura de meu corpo, que sem preservação t’oferecera,
(e que assim continuava),
o beijo intacto ao contacto do teu gosto...
não existias, não passavas de miragem. um construto.
uma projecção, um holograma de lava.
então, lentamente, num acto de amor e fé
com um sorriso arrojado de menina à face de meu rosto
esvaziei, um a um, todos os bolsos do meu corpo,
levantei-me erecta,
serena,
reencontrada em mim,
olhei de frente o mundo em meu redor e, num gesto redentor,
e, numa forma simbólica,
fénix renascida das chamas de Pompeia,
grata, deixei gorjeta...

___

imagem da net

outros trabalhos da autora: www.noitedemel.blogspot.com



Fonte: http://noitedemel.blogs.sapo.pt/44901.html

Clarividência - 17Jun2008

(foto de Mel)

****

tudo é claro e simples

na simplicidade evidente de um espaço aberto

de águas soltas

de folhas reveladas ao vento

gaivotas, violetas imperiais, em bailados d’acasalamento

em gestos francos, em gestos amplos e concretos.

da matriz da terra, do seu umbigo,

no orvalho gracioso e fino duma alvorada,

em passinhos de lã, essências nectarinas

s’elevam altas, maiores, do mar,

e, dos campos longínquos e dos infinitos lagos,

eclodem eflúvios leves:

d’alfazemas, magnólias, petúnias, alecrim e rosas

… absolutas rosas (nebulosas ‘inda),

petaladas a verde no verde mar de tangerinas.

tudo é claro e simples

como um beijo a desabrochar botão de carne

na carne de nossa boca

como uma memória antiga resguardada e que s’evoca

delicada

da caixa secreta de nossa infância.

agora são os corpos e os traços vivificantes

a desenhar contrafortes na escarpa de baunilha e de jasmim:

- doces, telúricos, vitais -,

recentrados na vitalidade de si, em fusão revitalizante

entre o ontem, o agora e o amanhã.

viajante

o dia amanhece, simples, aqui na ilha, tecido num registo d’evidência.


Aconteceu. Poesis XVI nasceu.

Um momento alto e único de partilha, de identidade. Uma cadeia que se liga e interliga. Palavras que se colam e recolam, num cimento único e maior: a língua Portuguesa.

Se gostei? Sim, mil vezes sim. Sem grandes complicações, na simplicidade de sermos simplesmente quem somos.

A todos os que, de uma forma ou de outra, presentes ou não, me ajudaram a dar mais este pequeno passo, o meu enorme agradecimento. Se, tal como ontem tive oportunidade de dizer, a escrita é um acto, quicá, solitário, editar, dar à estampa, à tela que seja, é um acto de partilha. E, com toda a certeza do mundo, gosto de partilhar.

Aos poetas desta Colectânea e à Minerva, as maiores venturas.

A todos os que por aqui passam, anónimos ou não, um bem-hajam!

Mel (diminutivo e não nick, como vos disse ontem) ou .... Maria Amélia de Carvalho.



Fonte: http://noitedemel.blogs.sapo.pt/44695.html

Mulheres d'Atenas - 11Jun2008

agora os teus pulsos sobre os meus
e os dedos
ágeis, soltos,
à urgência carcerária dum novelo por fiar
roca
fuso
rubros os fios incandescentes.
mítica a paisagem a interpretar
(vermelho o fascínio da viagem…)
agora o fabuloso, o indizível fio de seda,
casulo pálido, gemado, albumina
ainda
e um sol alaranjado a despertar nascente
do arrojo de ser pedra primeira onde descansas
insulada pedra (seja)
esmeralda
verde de um olhar.
o mar aqui, o mar ao lado, o mar ao largo
e a concha
do tempo ecoado em nós. desassossego
dum búzio colado ao teu ouvido
de várzeas latas
de latitudes reconhecidas
e jornadas postergadas e retomadas:
tatuagens de pele num voo rasante…
e pássaros inquietos
d’olhares meninos
e nichos de pedra branca, ninhos íntimos de nós
animais
insectos
corpos astrais colididos em movimentos lentos
ao epicentro de luz
pendular a
palavra
a lama e lava.
no vagar da tarde as minhas penas
a roçagar insanas a tua fome
num canto que s’ ecoa manso na fome da tua boca
e tu nu, aqui,
em forma dissimulada de seres poema
e eu,
simbólica míngua de todas as mulheres d’Atenas.
(imagens daqui)

Caros amigos, no próximo Sábado, dia 14 de Junho, em Lisboa (Benfica) será apresentada à imprensa a Colectânea Poesis XVI , com a chancela da Minerva, de que me honro fazer parte.

Gostaria de vos saber presentes. Grata pelo vosso carinho.

Todas as informações: http://www.luso-poemas.net/modules/newbb/viewtopic.php?topic_id=1242&forum=22



Fonte: http://noitedemel.blogs.sapo.pt/44294.html

guitarra portuguesa - 03Jun2008

vem
afrouxar amarras do teu corpo
desfraldar insígnias de concórdia erguida
erecta
e, na avenida desta cidade fazer-te porto,
porto d’abrigo
ancoradoiro de vagas, verbos e marés
poeta
no afoguear meu corpo em bonomias provençais
de ponta a ponta
de lés-a-lés
ser chama, vaga-lume, vento e ventania,
apagar a esquina incerta p’la detença e p’la demora
[que a alma, esta, chora e não suporta …]

ser fogo,
fogo-fátuo, fogo posto, labareda de seiva sal e baba
e não saber quando do dia começa e noite acaba
delírio, hossanas sem pudor nem pecado,
de lábios e de línguas revoltas,
sargaços em mar de nós, lençóis em prantos e espanto
a beijarem-se nascentes e fontanários de ternuras
no beber sorvendo serenidades e delas o sol d’Agosto
e luares, amado,
líquidos luares de luz… desenhados p’los teus dedos
em abismo no meu corpo.

vem, que te sinto e louca morro enrodilhada na praia
com a areia a roçagar a orla esgotada de minha saia
e o deserto tatuado nas maças do rosto
e as rugas, profundas, a ensinar o caminho à chuva,
esta que, ímpia, cai e, se tardas te dirá que, asfixiada morri…

aqui, tão perto, a céu aberto …

vem,
soltar lamentos em cordas duma guitarra portuguesa
despir-me desta vã incerteza de nada ser
e ser apenas mulher em ti
que, meu querido, no rebolar de minhas ancas
no tablado calado p’las minhas andaluzas
tamancas, navegam velas e voam livres,
penas e plumas, capelas sextinas,
capelas imperfeitas,
e bravos gemidos de gaivotas, em voos amplexos
e velas de paz… velas de luz.

vem

soltar de nós palomas brancas
espumas diamantinas
e memórias
d’ostras sagradas, meu amado...
dobrar o cabo Bojador, ser poeta em cada poro,
em cada verso de meu corpo esculpido em flor
por ti
em ti
beber do cálice cicuta dest’amor

maior

sem luta
me entregarei em dádiva absoluta.

_____

(quadros daqui)

Poema publicado em Escritartes

Outros trabalhos da autora em www.noitedemel.blogspot.com



Fonte: http://noitedemel.blogs.sapo.pt/44198.html

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Dois grãos de areia iam a passear pelo deserto, um vira-se e diz:

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